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Este artigo foi escrito no dia 31 jan 2014, e pertence à categoria Escrita em Progresso.

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A vida é uma faísca

A coluna “Escrita em Progresso” é feita pelo escritor, dramaturgo e encenador Juarez Guimarães Dias. Aqui você acompanha de perto a criação do romance “A Casa da Senhora HH”, que revela a história da Casa de Hilda Hilst, seus espaços e habitantes, entre personagens e objetos, mitos e narrativas, no período em que foi residência oficial da autora. A obra recebeu o Prêmio Biblioteca Nacional/ Funarte de Criação Literária, edição 2012.

 

31 de janeiro de 2014. Estou nos últimos dias de residência de criação na Casa do Sol e ontem havia preparado um texto que continuasse o post anterior, sobre a decisão de Hilda Hilst de abandonar a capital São Paulo para se dedicar à literatura em uma casa construída no campo. Mas o dia mudou, a Casa do Sol sofreu um incêndio que prometia ser devastador. Já suspeitávamos, pois na noite anterior um incêndio começara na mata dos terrenos vizinhos: um balão, de um clube de baloeiros da região, que, sem saber dos danos que pode causar, sobrevoou nosso céu limpo e estrelado, enquanto víamos as emoções finais da novela “Amor à vida”. Os bombeiros foram chamados e dormimos com a promessa do fogo controlado. A Casa estava a salvo.

Dia seguinte de manhã, os cães tomando sol, eu no terraço, na entrada da Casa, escrevendo, quando a fumaça começou a adentrar o jardim. No momento, Jurandy respondendo e-mails do Instituto Hilda Hilst dentro da Casa e Matheus fazia fotos de Olga com os cães junto à Figueira para o inventário do meu romance. Ligamos para os bombeiros que disseram estar a caminho. Demoraram quase três horas, de fato, o telefone 193 deve ter recebido dezenas de chamadas pois, além de nós, os vizinhos da Casa do Sol, a administração do Residencial Xangrilá, além de pessoas que souberam em tempo real do que acontecia pelo Facebook. Os bombeiros ainda se mostraram morosos e despreocupados em proteger um Jardim e uma Casa tombados pelo patrimônio histórico da cidade de Campinas. Lamentável e revoltante.

INCENDIO_1

Quando nos demos conta, o fogo já estava bem próximo à Casa, no gramado de fora, correndo e se espalhando em instantes. Estamos vivendo dias seguidos de intenso calor, tudo à volta seco, e aqui o mato é de capim barba-de-bode, química perfeita para a destruição. Mas a Casa não estava sozinha: além de mim, Olga, Jurandy e Matheus, Glauce, minha irmã, que chegara na noite anterior para uma visita, e Douglas, o empregado e jardineiro. Juntos, munimo-nos de baldes, panelas e mangueiras e começamos a apagar o incêndio que naquela altura já adentrara o jardim, promovendo espessas cortinas de fumaça, assustando os cães que corriam alvoroçados. De onde se olhava, parecia um cenário de guerra, o bambuzal antiquíssimo plantado por Hilda e Mora Fuentes em chamas altas de cinco metros que, de árvore em árvore, chegaram à Figueira mágica e centenária e começaram a devorar alguns de seus galhos grossos e longos. A Casa do Sol tinha sido atingida em seu coração. A vida é uma faísca.

Desespero, gritos de socorro, apelos a Hilda e Zé para nos ajudarem de onde estivessem, a mangueira que não chegava até a Figueira, o fogo se espalhando, enche balde e panela para apagar os focos que se espalhavam pelo canteiro de espadas-de-São-Jorge, braços tentando alçar a água até os galhos mais altos da Figueira, desespero, corre pra lá e pra cá, ligações incessantes para os bombeiros, Meu Deus, e agora?, a Casa, o Jardim, a Figueira, tudo será destruído, a Biblioteca de 5 mil títulos, os papéis, documentos, obras de arte, A História da Casa seria em pouco uma lembrança, uma ficção (que eu mesmo estava escrevendo), Desespero, o fogo avançava muito rápido, Vamos, Vamos, Agora é a entrada da Casa que está tomada, não há como passar, tem que tirar os carros, corre-corre, gritos de pavor, e então chegam vizinhos da Casa para ajudar, E os bombeiros, cadê os bombeiros? Quando chegaram, o pior já havia passado, mas ainda havia fogo e pouca água no caminhão. Os bombeiros queriam racioná-la. “Isso tudo é mato”, foi o argumento. Inacreditável. Daniel a caminho, vindo de São Paulo com Vitor, fazia importantes ligações para salvar o patrimônio, e em pouco estavam junto de nós, quando chegaram também Vereadores, o Diretor de Cultura município, a Imprensa com repórteres, fotógrafos e cinegrafistas. Mas ainda havia focos na Figueira, bem no alto, e na mata externa à Casa. Com o poder das autoridades presentes, um segundo caminhão foi enviado, com bastante capacidade, e os focos eliminados.

INCENDIO_2

Quando terminou, eram cinco da tarde. Fui pra cozinha preparar uma macarronada porque todos estavam famintos (ainda que nem se lembrassem disso), abalados e exaustos. Estávamos “fora de nós” como disse o Jurandy. Impossível traduzir aqui o que sentimos durante o dia. A Figueira se salvou, os bambuzais serão reconstruídos e a vida voltará a respirar. Felizmente, conseguimos conter o fogo de se alastrar e acabou tomando apenas uma pequena parte do jardim, junto à arvore centenária. A irresponsabilidade de baloeiros e a falta de estrutura do Corpo de Bombeiros colocaram uma Casa, seus residentes e uma história em completo risco. Mas o legado da Senhora H, a Casa do Sol e sua Obra, estão protegidos. E nós estamos bem e vivos, como diria o Sapo-Zé se estivesse aqui. Ou como a Senhora H em um poema:

“Ao invés de morte

Te chamo

Poesia

Fogo, fonte, palavra

Sorte.”

 

Fotos: Jurandy Valença. Curtiu? Comente, compartilhe! Visite a Casa no Facebook: /acasadasenhorah e converse com o autor: juarezgdias@gmail.com

 

saiba-mais

Juarez Guimarães Dias é mineiro, radicado em Belo Horizonte, e nasceu em 14 de abril de 1978 em Conselheiro Lafaiete. É Doutor em Artes Cênicas (Unirio), Mestre em Literatura (PUC-Minas) e Bacharel em Comunicação Social (Uni-BH). É escritor, dramaturgo e encenador, designer gráfico e professor do Centro Universitário de Belo Horizonte (Uni-BH), onde é docente do curso de Publicidade e Propaganda. É autor de “O fluxo metanarrativo de Hilda Hilst em ‘Fluxo-floema’” (Ed. Annablume, 2010), obra oriunda de sua dissertação de Mestrado. Atualmente desenvolve o romance literário “A Casa da Senhora H” sobre a Casa do Sol da escritora Hilda Hilst, projeto contemplado pelo Prêmio Funarte/ Biblioteca Nacional de Criação Literária 2012.

Desde a infância tem apreço por livros (especialmente por romances e contos), o que o levou também a escrever literatura e a produzir jornais aos 11 anos de idade. Desde então, coleciona uma produção (não publicada) de 7 romances, 30 contos, alguns poemas e letras de música, crônicas, roteiros e dramaturgias e muitos textos inacabados. Entretanto, só assumiu profissionalmente o ofício da escrita a partir de sua experiência no teatro como dramaturgo e encenador e, mais recentemente, como escritor por meio do romance “A Casa da Senhora H”. Foi vencedor do Prêmio de Dramaturgia do Clube dos Escritores de Ipatinga/ USIMINAS com a peça (inédita) “Oriana tem que morrer”.

 

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