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Este artigo foi escrito no dia 26 set 2013, e pertence à categoria Resenhas.

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Resenha: O Arroz de Palma [Francisco de Azevedo]

Resenha escrita pela colunista convidada Val Prochnow. Val é mineira e jornalista. Já fez de um tudo, desfez-se de um tanto. Entre idas e vindas, mudanças e indecisões, tem a escrita como constante.

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Não se engane, leitor. O Arroz de Palma é refeição completa, prato para ser degustado em sábados de agenda livre ou em domingos chuvosos e acolhedores. Esqueça o texto de bolso – lanche rápido – ótimos companheiros em viagens de ônibus ou à espera da consulta médica. Esqueça a pressa e o tempo marcado no relógio. Desligue os telefones, os fixos e os móveis, e aceite o convite de Antonio, o cozinheiro de 88 anos que abre sua cozinha e sua memória enquanto prepara um almoço que reunirá, após longos anos de jejum, sua família inteira novamente.

O narrador põe a mesa com cuidado e já avisa logo na entrada: família é prato difícil de preparar. Convite aceito, basta escolher um bom lugar. Dê preferência àquela cadeira que te permita observar o preparo cuidadoso da receita de Antonio e o preparo da própria narrativa, do livro, afinal. Enquanto o forno pré-aquece, vamos sendo apresentados a todos os ingredientes, fatos, gentes, um a um,  com precisão e temperos exatos. Alguns personagens são cozinhados em banho-maria – ainda não é hora de expor o dito ao fogo máximo; outros aparecem brevemente, pequenas doses de cheiro verde salpicados na mistura do prato principal. E assim, texto, memórias, passado, presente, futuro,  vão sendo doce e calmamente misturados, dosados, provados.

O leitor é convidado a preparar o reencontro da família e nos oferece dicas preciosas para que a receita não desande: “Atenção também com os pesos e as medidas. Uma pitada a mais disso ou daquilo e, pronto, é um verdadeiro desastre. Família é prato extremamente sensível. Tudo tem de ser muito bem pesado, muito bem medido. Outra coisa: é preciso ter boa mão, ser profissional. Principalmente na hora que se decide meter a colher. Saber meter a colher é verdadeira arte. Uma grande amiga minha desandou a receita de toda a família, só porque meteu a colher na hora errada”.

Antonio carrega memória feito livro de receitas que passa de geração a geração e mistura sem pudor algum, recortes de jornal a novidades coletadas nos blogs de culinária dos tempos de hoje.  Em seu cardápio vasto não falta afeto, seu ingrediente favorito – todos os chefs têm um? – e Tia Palma reina absoluta, é a dona da cozinha de sua infância. É ela que dá o ponto certo nas relações, e quando o caldo entorna, família é prato difícil de preparar, se bota logo a preparar um rápido consolo para o prato vazio da alma.

literar-arroz02Se tem família, tem tradição. A da família de Antonio gira em torno de uma saca de arroz, presente no núcleo por cem anos, desde o casamento de seus pais, em 1908. Durante um século, o arroz é capaz de unir e separar, fazer doer e curar.  Oferecido por Tia Palma para o jovem casal ainda em Portugal, o grão serve de fio condutor da narrativa, migalhinhas de pão jogadas no labirinto da memória. O mesmo arroz que abençoou o casamento no dia da celebração religiosa – tradição universal – são recolhidos na igreja e guardados para que a família não se esqueça do ingrediente principal e insubstituível de sua receita – o amor.

Com pitadas de humor, de poesia, de prosa à beira do fogão, somos conduzidos a uma narrativa saborosa que oferece ao leitor um prato saboroso e delicado. Nada é perfeito e, mesmo com o cuidado do chef, os imprevistos são constantes. Ao cozinheiro, resta a sabedoria do improviso para substituir temperos e ingredientes. E não há dúvidas de que, ao final, a falta vira abundância e o improviso garante a originalidade da receita única:

“O pior é que ainda tem gente que acredita na receita da família perfeita. Bobagem. Tudo ilusão. Não existe Família à Oswaldo Aranha; Família à Rossini; Família à Belle Meunière; Família ao Molho Pardo, em que o sangue é fundamental para o preparo da iguaria. Família é afinidade, é “à Moda da Casa”. E cada casa gosta de preparar a família a seu jeito.”

O Arroz de Palma, caro leitor, é prato feito para encantar. Ao se posicionar em frente ao prato generoso, siga uma das receitas do nosso narrador e “não ligue para etiquetas. Passe o pão naquele molhinho que ficou na porcelana, na louça, no alumínio ou no barro. Aproveite ao máximo. Família é prato que, quando se acaba, nunca mais se repete“.

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literar-arroz01O ARROZ DE PALMA

Autor: Francisco de Azevedo
2008, 368 páginas, Editora Record

Onde comprar?
Saraiva
Submarino 
Livraria Cultura
Livraria da Folha
Estante Virtual (novos e usados)

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por Val Prochnow

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*resenha escrita pela colunista convidada Val Prochnow

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