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Este artigo foi escrito no dia 27 fev 2014, e pertence à categoria Escrita em Progresso.

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Cartas Endereçam Lugares

A coluna “Escrita em Progresso” é feita pelo escritor, dramaturgo e encenador Juarez Guimarães Dias. Aqui você acompanha de perto a criação do romance “A Casa da Senhora H”, que revela a história da Casa de Hilda Hilst, seus espaços e habitantes, entre personagens e objetos, mitos e narrativas, no período em que foi residência oficial da autora. A obra recebeu o Prêmio Biblioteca Nacional/ Funarte de Criação Literária, edição 2012.

27 de fevereiro de 2014. Ontem recebi, depois de ter sido postada nos Correios há 15 dias e gerar uma expectativa enorme, uma carta da minha irmã que vive no Rio de Janeiro. É a segunda de uma série que começamos a trocar recentemente e que tem ressaltado para mim seu grande valor: há coisas que cabem apenas numa carta. Em nossa sociedade midiatizada e individualizada, pode parecer estranho quando se decide parar o tempo para escrever, de próprio punho ainda, confissões que serão seladas e endereçadas a alguém. Uma carta viaja no espaço do real, passa de mão em mão: sai de uma agência local dos Correios para a central; dali, em furgões/ caminhões/ aviões, chega a outra agência central e depois local e acaba no embornal de um carteiro que percorre ruas e avenidas à procura de um nome de rua e um número de endereço. O processo é lento, mas aquilo que guardam em seu invólucro é capaz de resistir à passagem do tempo.

Na semana passada, escrevi aqui sobre a mudança de endereço da Senhorita H, que nos anos 1960 deixou a capital paulistana para construir sua Casa do Sol e viver no campo (Leia “Uma residência, um endereço”) e se dedicar ao trabalho literário. Vivendo no meio do mato num tempo sem internet e computadores, a escritora tinha como principal contato com seus familiares e amigos um endereço de Caixa Postal em Campinas (algum tempo depois a Casa adquiriu linha telefônica, que não substituiu o meio impresso). E era Danton-Brucutú, seu marido, quem todos os dias saía cedo da fazenda para ir à cidade fazer compras, trazer o jornal e a correspondência.

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Durante a processo de pesquisa sobre a Casa do Sol no acervo do Instituto Hilda Hilst e da Unicamp, o que mais encontrei foram cartas e cartões-postais recebidos pela Senhora H e algumas escritas por ela. Tenho selecionado fragmentos para compor a escrita do romance que já assumiu seu caráter documental, numa fricção entre realidade e ficção, que acredito ser um dos paradigmas que vivemos atualmente. Posso ser alguém num tempo de transição, mas continuo dedicando horas à leitura e apreciação dessas correspondências que revelam muito mais sobre quem escreve, do que estava se passando, da época em que se vivia, do contexto dessas relações. Vasculhando acervos, procuro-as nas diversas moradias, gavetas e fundos de armário, caixas, pastas e envelopes: cartas habitam casas.

O tempo de uma carta é outro: a dificuldade de comunicação profunda instantânea estimula o desenvolvimento de longos textos que precisam dar conta da relação entre duas pessoas: o que estão vivendo, pensando, sentindo. Seu caráter confessional e reflexivo não cabe no tempo-espaço de um e-mail, sempre ocupado em dar conta do mais imediato. Uma carta exige cuidado e atenção, coisas que parecem ter se perdido no contemporâneo acachapante de incessantes estímulos, muitas vezes nem tão estimulantes assim. Cartas superam a nossa efemeridade existencial.

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Sou ainda de uma geração que escreveu e recebeu cartas (prática ancestral em tempos de smartphones e internet). Que alegria ter alguém esperando para se abrir aos seus olhos na sua caixa de correios! Ainda ontem, quando já acreditava ter se extraviado em função do tempo que levou para chegar, qual não foi minha surpresa quando ela estava lá! Abri-a e pus a lê-la com o sabor de um passado ainda vivo, necessário para a interação mais profunda entre os seres. Não é um saudosismo antecipado, porque uma carta contém a personalidade de quem escreve através de sua letra, tão pessoal quanto a impressão digital em documentos. Um e-mail, um torpedo, um whats app ou um snapchat não substituirá a importância de uma carta, ainda que muitos acreditem no fim próximo da escrita a mão e, quiçá, dos Correios. Não sei o que será no futuro, mas penso que se as cartas estão com seus dias contatos, algumas coisas que só dizemos através delas também. O fim das cartas pode significar a limitação da nossa expressão e personalidade.

Curtiu? Comente, compartilhe! Converse com o autor: juarezgdias@gmail.com

saiba-mais

Juarez Guimarães Dias é mineiro, radicado em Belo Horizonte, e nasceu em 14 de abril de 1978 em Conselheiro Lafaiete. É Doutor em Artes Cênicas (Unirio), Mestre em Literatura (PUC-Minas) e Bacharel em Comunicação Social (Uni-BH). É escritor, dramaturgo e encenador, designer gráfico e professor do Centro Universitário de Belo Horizonte (Uni-BH), onde é docente do curso de Publicidade e Propaganda. É autor de “O fluxo metanarrativo de Hilda Hilst em ‘Fluxo-floema’” (Ed. Annablume, 2010), obra oriunda de sua dissertação de Mestrado. Atualmente desenvolve o romance literário “A Casa da Senhora H” sobre a Casa do Sol da escritora Hilda Hilst, projeto contemplado pelo Prêmio Funarte/ Biblioteca Nacional de Criação Literária 2012.

Desde a infância tem apreço por livros (especialmente por romances e contos), o que o levou também a escrever literatura e a produzir jornais aos 11 anos de idade. Desde então, coleciona uma produção (não publicada) de 7 romances, 30 contos, alguns poemas e letras de música, crônicas, roteiros e dramaturgias e muitos textos inacabados. Entretanto, só assumiu profissionalmente o ofício da escrita a partir de sua experiência no teatro como dramaturgo e encenador e, mais recentemente, como escritor por meio do romance “A Casa da Senhora H”. Foi vencedor do Prêmio de Dramaturgia do Clube dos Escritores de Ipatinga/ USIMINAS com a peça (inédita) “Oriana tem que morrer”.

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