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Este artigo foi escrito no dia 03 abr 2014, e pertence à categoria Escrita em Progresso.

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Construir a Casa

A coluna “Escrita em Progresso” é feita pelo escritor, dramaturgo e encenador Juarez Guimarães Dias. Aqui você acompanha de perto a criação do romance “A Casa da Senhora H”, que revela a história da Casa de Hilda Hilst, seus espaços e habitantes, entre personagens e objetos, mitos e narrativas, no período em que foi residência oficial da autora. A obra recebeu o Prêmio Biblioteca Nacional/ Funarte de Criação Literária, edição 2012.

3 de abril de 2014. Olá, amigos e leitores! Nas últimas semanas estive absolutamente concentrado na escrita do romance A Casa da Senhora H, reta finalíssima! Como todas as minhas criações, esta principalmente, partem de um trabalho de pesquisa, que envolve levantamento, coleta, sistematização e análise de dados, o trabalho é pra lá de redobrado e exige TEMPO. E, todos nós sabemos hoje, o quanto o tempo é a moeda mais preciosa do nosso tempo, quando somos assolados por inúmeras tarefas e compromissos. Não obstante, era essa a questão da Senhora H quando, em 1964 (isso mesmo, há 50 anos, quando sofremos o Golpe Militar), decidiu abandonar a capital São Paulo para se refugiar no campo e conseguir tempo suficiente para produzir sua Obra.

Agora, com dois terços concluídos do romance, vou em direção à ultima etapa. Enquanto na primeira parte, O PROJETO, o leitor vai acompanhar a trajetória da Senhorita H, de seu nascimento até o momento em que decide se dedicar integralmente à Literatura, a segunda parte, A CASA, concentra-se na história da Casa do Sol, que se inicia na sua concepção, demarcação do terreno  próximo à Figueira centenária nas terras da Fazenda São José, construção-gestação e se desenvolve nos seus 50 anos de existência até o presente momento. A maior dificuldade que encontrei foi o processo de construir e transformar a Casa em personagem protagonista, a partir da qual as histórias dos residentes são reveladas. Portanto, para não insistir demais no suspense, pois em breve divulgarei aqui os títulos que compõem a segunda parte do romance, segue uma edição de textos referentes ao Capítulo 30:

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“30 HOMENS PARA A GESTAÇÃO. Foram oito meses, quase nove, de obras ininterruptas, dia e noite, noite e dia, em que se juntaram trinta homens, vindos diariamente da cidade em duas caminhonetas para edificar a Casa, arrebanhados por Brucutú que assumiu de pronto a tarefa de fiscalizar a obra. Grande, de tez bronzeada e agigantadas mãos, o companheiro da Senhorita H era enérgico com os empregados, não deixando que esmorecessem sob o forte sol da Fazenda. Contava-lhes inúmeras histórias de touradas espanholas, sua grande paixão, e aplicava brincadeiras e troças para se distraírem quando o trabalho penava sobre os corpos.

Começaram por cercar o terreno e avançaram com trator e enxadas para retirar o capim barba-de-bode e deixar um alqueire nu e limpo em terra. Chegaram então areia, brita, cimento, tijolos, ferragens, que foram armazenados num barracão levantado para protegerem-nos e aos trabalhadores das intempéries da natureza. Montado o canteiro de obras, a Senhorita H pediu que, antes de seguirem, construíssem um conjunto de mesa e cadeiras de pedra, à sombra e aos pés da Figueira, de onde acompanharia a construção e poderia receber visitas. Pediu também que pendurassem um balanço num de seus galhos mais altos. E assim foi feito. Disso, partiram para a terraplanagem, em seguida cavaram a terra para abrirem as fundações, assentando suas raízes em ferro e concreto, alinhamento perfeito para a casa ganhar sustentação e depois nivelamento e impermeabilização para evitar que a umidade subisse pelas futuras paredes, importante proteção em longo prazo. A estrutura da casa, de ferro e concreto enformados em linhas e ângulos, conferia-lhe o aspecto de um esqueleto reto, cujas vigas e pilares formavam um conjunto de costelas.

Naquela altura, Mário Schenberg fora visitar a construção. Já se disse que era um físico inteligentíssimo, mas vale ressaltar que se consagrou por ter proposto a teoria da presença de neutrinos, recém-descobertos, na drenagem de parte considerável da energia das estrelas. Sentaram-se, junto à filha de um dos colonos, nas cadeiras de pedra debaixo da Figueira. O amigo assustou-se ao encontrar a Senhorita H em trajes de uma camponesa, o lenço emoldurando a cabeça e sobre ela um chapéu para proteger o rosto do sol, camisa de manga comprida, calças e botas de cano longo, o rosto limpo sem adornos ou maquiagem. Era outra mulher. Sabe o que agora dizem de você, na capital?, perguntou-lhe, o sorriso no canto dos lábios. Ela já imaginava, mas ainda queria saber. Alguns andam a rir muito desta sua aventura, que você agora quer dar uma de fazendeira. Uns apostaram no seu retorno breve a São Paulo, pois juram que não suportará viver longe das festas por muito tempo. Ela sorriu e mirou sua casa nos pilares. Brucutú sacou uma câmera fotográfica e imortalizou o momento. Foi quando lhe assaltou pela primeira vez a epifania do sonho com o Senhor Cara de Cão, ele vestido do Pai Louco junto com a Mãe-Amada, a Senhora de Chapéus. Estava certo: ela era outra pessoa. Olhou: o Senhor Cara de Cão latia aos seus pés.”

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Juarez Guimarães Dias é mineiro, radicado em Belo Horizonte, e nasceu em 14 de abril de 1978 em Conselheiro Lafaiete. É Doutor em Artes Cênicas (Unirio), Mestre em Literatura (PUC-Minas) e Bacharel em Comunicação Social (Uni-BH). É escritor, dramaturgo e encenador, designer gráfico e professor do Centro Universitário de Belo Horizonte (Uni-BH), onde é docente do curso de Publicidade e Propaganda. É autor de “O fluxo metanarrativo de Hilda Hilst em ‘Fluxo-floema’” (Ed. Annablume, 2010), obra oriunda de sua dissertação de Mestrado. Atualmente desenvolve o romance literário “A Casa da Senhora H” sobre a Casa do Sol da escritora Hilda Hilst, projeto contemplado pelo Prêmio Funarte/ Biblioteca Nacional de Criação Literária 2012.

Desde a infância tem apreço por livros (especialmente por romances e contos), o que o levou também a escrever literatura e a produzir jornais aos 11 anos de idade. Desde então, coleciona uma produção (não publicada) de 7 romances, 30 contos, alguns poemas e letras de música, crônicas, roteiros e dramaturgias e muitos textos inacabados. Entretanto, só assumiu profissionalmente o ofício da escrita a partir de sua experiência no teatro como dramaturgo e encenador e, mais recentemente, como escritor por meio do romance “A Casa da Senhora H”. Foi vencedor do Prêmio de Dramaturgia do Clube dos Escritores de Ipatinga/ USIMINAS com a peça (inédita) “Oriana tem que morrer”.

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