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Este artigo foi escrito no dia 14 out 2013, e pertence à categoria Escrita em Progresso.

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De dentro da casa

A coluna “Escrita em Progresso” é feita pelo escritor, dramaturgo e encenador Juarez Guimarães Dias. Aqui você acompanha de perto a criação do romance “A Casa da Senhora H”, que revela a história da Casa de Hilda Hilst, seus espaços e habitantes, entre personagens e objetos, mitos e narrativas, no período em que foi residência oficial da autora. A obra recebeu o Prêmio Biblioteca Nacional/ Funarte de Criação Literária, edição 2012.

14 de outubro de 2013. Há 4 dias estou novamente hospedado na Casa do Sol, “A Casa da Senhora H”, para novo período de residência de criação do romance. A primeira foi em janeiro deste ano, quando vim pesquisar o acervo de Hilda Hilst, que me levou a descobertas incríveis e inimagináveis, como a foto da casa ainda sob as pilastras logo no início de sua construção, cartas de pessoas que se tornaram personagens de Hilda, além do material mais precioso, inúmeros bilhetes, delicados ou ásperos, recados em guardanapos de pano, diários e cadernos onde há o registro do cotidiano de pessoas nesta casa. Hilda Hilst construiu a Casa do Sol para ler e escrever, projeto que realizou com determinação e que compõe e sustenta sua obra literária: descobrir o seu dia-a-dia, o que se passava aqui, é o leit motiv dessa criação.

Patio_CasadoSol_Foto Juarez G Dias

Desta vez, sigo mergulhado dentro da Casa, ouvindo mais e mais histórias, o gravador agora fica quase sempre ligado, porque as pessoas que vivem ou viveram, frequentam ou frequentaram, adoram contá-las, já que participaram e vivenciaram situações incríveis nesta vida em comunidade rural capitaneada pela Senhora H. Há dois dias, leio o acervo de cartas entre Hilda e Mora Fuentes (de 1970 a 1993) com grande interesse e paixão, uma relação intensa e profunda iniciada como amantes e que se transformou numa irmandade das mais belas. Entre si, tratavam-se como Lacraia e Sapo e conversavam sobre tudo, a Casa, seus projetos individuais, leituras, os sentimentos pelas pessoas e pelo mundo, o medo da morte e a vontade de viver. Os textos, de extrema qualidade literária, recontam episódios, discussões, paixões, o que há de mais humano na vida de dois escritores que se amavam e prometeram lealdade um ao outro até o fim. Os dois já não estão fisicamente entre nós, talvez em Marduk como acreditava Hilda, mas na imortalidade de alma atrás das letras:

“Sapo (será que devo te chamar Mora Fuentes, já que pretendemos que os pósteros nos leiam?) isso de Sapo e Lacraia vai soar mal. Ou não? Adoro sapos. Olhe, agora já posso te escrever com mais tranquilidade, porque acabei de fazer uma página do tal sedutor [futuramente Cartas de um sedutor]. Não sei como o H. [Henry] Miller podia escrever tantas cartas a Anaïs [Nin] e ainda sim escrever como um louco. […]  Isso que o médico me receitou de andar meia hora de manhã e meia hora de tarde tá acabando comigo. Fico roxa ofegante, não tão roxa mas bem roxinha, ou rosa, e de mau humor porque parece-me que perdi tempo andando. O meu negócio já sabes é ficar lendo. E não posso ler ou escrever andando. […] Hilda.”

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É tudo tão concreto e real que sou perguntado a todo o momento: mas o que é que você está escrevendo? É ficção ou realidade? Respondo: É um romance. “A Casa da Senhora H” é o encontro da imaginação com a realidade, porque toda narrativa é, sobretudo, ficção. Os principais personagens são derivações de pessoas que existem e existiram, reais e inventados. É a minha maneira de contar essa história, que conheci em 2002 através de um livro de Hilda ganhado quase ao acaso e que depois foi um divisor de águas na minha vida. E a realidade é isso aqui, eu na Casa, no agora, habitando seus cômodos, vasculhando suas gavetas e deixando que ela me conte sua história.

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Juarez Guimarães Dias é mineiro, radicado em Belo Horizonte, e nasceu em 14 de abril de 1978 em Conselheiro Lafaiete. É Doutor em Artes Cênicas (Unirio), Mestre em Literatura (PUC-Minas) e Bacharel em Comunicação Social (Uni-BH). É escritor, dramaturgo e encenador, parceiro da Cia. Pierrot Lunar desde 2006, onde atua também como orientador de pesquisa de linguagem. É ainda designer gráfico e professor do Centro Universitário de Belo Horizonte (Uni-BH), onde é docente do curso de Publicidade e Propaganda. É autor de “O fluxo metanarrativo de Hilda Hilst em ‘Fluxo-floema’” (Ed. Annablume, 2010), obra oriunda de sua dissertação de Mestrado. Atualmente desenvolve o romance literário “A Casa da Senhora H” sobre a Casa do Sol da escritora Hilda Hilst, projeto contemplado pelo Prêmio Funarte/ Biblioteca Nacional de Criação Literária 2012.

De criança tem paixão por livros (com especial apreço por romances e contos) e perdia-se nas bibliotecas de familiares em busca de novas aventuras, o que o levou também a escrever literatura e a produzir jornais aos 11 anos de idade. Desde então, coleciona a produção (não publicada) de 7 romances, 29 contos, alguns poemas e letras de música, crônicas, roteiros e dramaturgias e muitos textos inacabados. Entretanto, só vai assumir profissionalmente o ofício da escrita a partir de sua experiência no teatro como dramaturgo e encenador e, mais recentemente, como escritor por meio do romance “A Casa da Senhora H”, primeira investida profissional na Literatura. Foi vencedor do Prêmio de Dramaturgia do Clube dos Escritores de Ipatinga/ USIMINAS com a peça (inédita) “Oriana tem que morrer”.

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