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Este artigo foi escrito no dia 16 jan 2014, e pertence à categoria Escrita em Progresso.

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De Volta à Casa

A coluna “Escrita em Progresso” é feita pelo escritor, dramaturgo e encenador Juarez Guimarães Dias. Aqui você acompanha de perto a criação do romance “A Casa da Senhora HH”, que revela a história da Casa de Hilda Hilst, seus espaços e habitantes, entre personagens e objetos, mitos e narrativas, no período em que foi residência oficial da autora. A obra recebeu o Prêmio Biblioteca Nacional/ Funarte de Criação Literária, edição 2012.

16 de janeiro de 2014. Amanhã estarei de volta à Casa do Sol para a última residência de criação do romance “A Casa da Senhora HH”. Serão 17 dias hospedado novamente no mesmo quarto (que nos primórdios havia sido uma despensa) e com o qual já tenho familiaridade e quase posso chamá-lo de “meu”. A experiência de viver na Casa e ouvi-la é a cereja do bolo desse processo de criação. Lá, estarei novamente imerso em suas dependências, observando seus detalhes, tomando sol no pátio interno de pedras perfeitas, caminhando até a figueira, adentrando seus espaços de silêncio (somente interrompido pelos latidos dos cães), sentando-me à mesa com os amigos para ouvir suas histórias e saborear seu cotidiano. E escrevendo, escrevendo, escrevendo.

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Como já se sabe, o romance é sobre a história dessa Casa, que a escritora Hilda Hilst construiu nas terras da Fazenda São José, pertencentes à sua mãe Bedecilda, com o principal objetivo de poder ler e escrever seu trabalho literário. Sua arquitetura de inspiração conventual em estilo colonial mineiro, como as casas das avós de Hilda, foi espaço de reclusão para sua produção artística, mas essa vida monástica era apenas circunstancial: principalmente nas décadas de 1970 e 1980, foi frequentada por grandes nomes da intelectualidade brasileira, como o Maestro José Antônio de Almeida Prado, a escritora Lygia Fagundes Telles, a poeta Olga Savary, o editor Massao Ohno, os críticos Léo Gilson Ribeiro e Nelly Novaes Coelho, os físicos Mario Schenberg, César Lattes e Newton Bernardes, o diretor de teatro Rofran Fernandes, a pintora e gravurista Maria Bonomim, Gutemberg Medeiros entre outros.

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Nos primeiros anos, Hilda viveu lá com seu companheiro (e depois marido) o escultor Dante Casarini e alguns empregados que cuidavam da casa e dos cães, num tempo em que à noite era preciso acender 30 lampiões a gás para iluminá-la, na falta de luz elétrica por aquelas bandas. Recebiam alguns amigos que iam visitá-los até que Hilda começou a oferecer convites para alguns morarem junto com eles. Dos residentes, os que mais tempo permaneceram foram Dante Casarini (que, depois do divórcio, seguiu vivendo lá com sua nova mulher, Iara Scheidt), Caio Fernando Abreu, José Luís Mora Fuentes, Olga Bilenki, Daniel Bilenki Mora Fuentes, Jurandy Valença, Edson da Costa Duarte. A história da Casa do Sol é, prioritariamente, uma história de encontros, de uma vida em comunidade (com se pretendia a utopia dos anos 1960), de partilha, convivência e troca de experiências, de amizade e amores, de grandes paixões e o exercício da liberdade e da autenticidade, longe dos holofotes da moralidade e das duras regras da vida em sociedade urbana.

Depois de sua morte, a Casa foi transformada em sede do Instituto Hilda Hilst, que ela mesma havia concebido e idealizado junto ao escritor, amigo fiel e companheiro José Luis Mora Fuentes, herdeiro de metade da propriedade. O outro quinhão ficou para o parente mais próximo, um sobrinho, filho de seu meio-irmão Ruy Vaz Cardoso, que não se interessava por esse legado. Após o falecimento de Mora Fuentes, sua parte destinou-se à sua companheira Olga Bilenki e a seu filho Daniel B. M. Fuentes, que já tinha sido presenteado por HH com os direitos autorais de sua obra em testamento. Juntos, adquiriram a metade familiar da propriedade e hoje a Casa do Sol é preservada e mantida pela família eletiva de Hilda Hilst, seus amigos mais próximos e dedicados, entre eles Jurandy Valença que regressou para cuidar dos projetos.

A Casa mantém-se como sempre foi, com seus móveis, objetos e adornos, os cães, o jardim, a figueira, com pequenas modificações, pois quarto de Hilda passou a abrigar sua biblioteca, que contém 3 mil títulos de obras importantes e muitas delas raras. Das principais atividades que o IHH desenvolve, estão as residências criativas onde estudantes, pesquisadores e artistas são recebidos e hospedados para desenvolverem seus trabalhos, estando ou não ligados à escritora. A Casa, portanto, segue a vocação para a qual foi construída, um espaço para a concentração, o exercício da liberdade e da criatividade e da convivência.Para mim, chegar à Casa é sempre voltar no tempo ou entrar num tempo sem tempo, em que se pode imaginar o que ali já foi vivido e dito, as lembranças de Hilda e Mora Fuentes que tive o prazer de conhecer. E será de dentro da personagem, a Casa do Sol, que sua história ganhará a forma final de um romance.

Curtiu? Comente, compartilhe! Visite a Casa virtual no Facebook: /acasadasenhorah. Converse com o autor: juarezgdias@gmail.com

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saiba-mais

Juarez Guimarães Dias é mineiro, radicado em Belo Horizonte, e nasceu em 14 de abril de 1978 em Conselheiro Lafaiete. É Doutor em Artes Cênicas (Unirio), Mestre em Literatura (PUC-Minas) e Bacharel em Comunicação Social (Uni-BH). É escritor, dramaturgo e encenador, designer gráfico e professor do Centro Universitário de Belo Horizonte (Uni-BH), onde é docente do curso de Publicidade e Propaganda. É autor de “O fluxo metanarrativo de Hilda Hilst em ‘Fluxo-floema’” (Ed. Annablume, 2010), obra oriunda de sua dissertação de Mestrado. Atualmente desenvolve o romance literário “A Casa da Senhora H” sobre a Casa do Sol da escritora Hilda Hilst, projeto contemplado pelo Prêmio Funarte/ Biblioteca Nacional de Criação Literária 2012.

Desde a infância tem apreço por livros (especialmente por romances e contos), o que o levou também a escrever literatura e a produzir jornais aos 11 anos de idade. Desde então, coleciona uma produção (não publicada) de 7 romances, 30 contos, alguns poemas e letras de música, crônicas, roteiros e dramaturgias e muitos textos inacabados. Entretanto, só assumiu profissionalmente o ofício da escrita a partir de sua experiência no teatro como dramaturgo e encenador e, mais recentemente, como escritor por meio do romance “A Casa da Senhora H”. Foi vencedor do Prêmio de Dramaturgia do Clube dos Escritores de Ipatinga/ USIMINAS com a peça (inédita) “Oriana tem que morrer”.

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