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Este artigo foi escrito no dia 21 out 2013, e pertence à categoria Escrita em Progresso.

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Desbiografar

A coluna “Escrita em Progresso” é feita pelo escritor, dramaturgo e encenador Juarez Guimarães Dias. Aqui você acompanha de perto a criação do romance “A Casa da Senhora H”, que revela a história da Casa de Hilda Hilst, seus espaços e habitantes, entre personagens e objetos, mitos e narrativas, no período em que foi residência oficial da autora. A obra recebeu o Prêmio Biblioteca Nacional/ Funarte de Criação Literária, edição 2012.

21 de outubro de 2013. O tema das biografias está no ar. O debate esquenta e nas redes sociais ganha aspectos esquizofrênicos pela leitura/ comentários fragmentados e muitas vezes superficiais sobre os diversos pontos-de-vista. Enquanto isso, sigo pensando no romance “A Casa da Senhora H” que parte de um universo concreto, a casa da escritora Hilda Hilst, e portanto tem confundido muitos leitores sobre a relação entre realidade e ficção neste trabalho. Escrevi um pouco sobre isso na semana passada, mas no contexto podemos ir um pouco mais fundo. Para compor o romance, de ordem absolutamente ficcional, tenho pesquisado sobre as pessoas que viveram na Casa do Sol através de suas cartas, diários, bilhetes, obras e objetos pessoais.

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A primeira questão que emergiu nesta etapa foi sobre o nome que os personagens terão no livro. Como ficcionar o real? À princípio, pensei em batizar os personagens pela junção de sílabas de seus nomes verdadeiros, o que levou Olga Bilenki a ser batizada de Olenki, Jurandy Valença de Jurancy, José Luis Mora Fuentes de Josuentes, Dante Casarini de Dantini e Hilda Hilst de A Senhora H, entre outros. Entretanto, no processo de criação compartilhada, o retorno é certeiro e imediato: alguns personagens não se identificaram com a proposta e, no fundo, nem eu mesmo estava convencido dela, mas processo é processo e foi o que me propus a fazer: expor as fragilidades da criação.

Durante a última residência na Casa, a leitura das diversas cartas e as entrevistas com as pessoas-personagens foram alterando o batismo. O escritor muitas vezes não cria, pois a vida pode ser mais surpreendente e reveladora, basta estar atento às pistas. Os nomes que terão em “A Casa da Senhora H” já existem e são apelidos com que se chamavam na vida microcósmica e comunitária da Casa do Sol: Sapo, Lacraia, Pequena Olga, Brucutú, Lebre e suas possibilidades de variação Sapo-Zé, Hilda-Lacraia, Danton-Brucutú, conjugando realidade e ficção, porque no fundo tudo se transforma em ficção. O que importa na criação do romance é trazer à tona o que está no fundo das gavetas e dos armários, as paixões, os afetos, os conflitos, extraídos de tantos materiais, fazendo com que a realidade passe a outro status. Ficcionar é sempre mais interessante.

De outro lado, as biografias (autorizadas ou não) serão sempre ficção, ainda que sob o estatuto factual de vínculo com o real. E o que dizer do jornalismo de fofocas que é nada mais do que micro-biografias não autorizadas de pessoas públicas e celebridades. Então, para os que defendem o direito à privacidade e à autorização, que incluam nos seus argumentos a censura ao jornalismo. Será mesmo por aí? Enquanto a celeuma está no ar, #ficaadica: escrevamos romances, ultrapassemos as amarras da realidade, em direção ao mundo mais livre da imaginação, ou seja, desbiografemos.

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Juarez Guimarães Dias é mineiro, radicado em Belo Horizonte, e nasceu em 14 de abril de 1978 em Conselheiro Lafaiete. É Doutor em Artes Cênicas (Unirio), Mestre em Literatura (PUC-Minas) e Bacharel em Comunicação Social (Uni-BH). É escritor, dramaturgo e encenador, parceiro da Cia. Pierrot Lunar desde 2006, onde atua também como orientador de pesquisa de linguagem. É ainda designer gráfico e professor do Centro Universitário de Belo Horizonte (Uni-BH), onde é docente do curso de Publicidade e Propaganda. É autor de “O fluxo metanarrativo de Hilda Hilst em ‘Fluxo-floema’” (Ed. Annablume, 2010), obra oriunda de sua dissertação de Mestrado. Atualmente desenvolve o romance literário “A Casa da Senhora H” sobre a Casa do Sol da escritora Hilda Hilst, projeto contemplado pelo Prêmio Funarte/ Biblioteca Nacional de Criação Literária 2012.

De criança tem paixão por livros (com especial apreço por romances e contos) e perdia-se nas bibliotecas de familiares em busca de novas aventuras, o que o levou também a escrever literatura e a produzir jornais aos 11 anos de idade. Desde então, coleciona a produção (não publicada) de 7 romances, 29 contos, alguns poemas e letras de música, crônicas, roteiros e dramaturgias e muitos textos inacabados. Entretanto, só vai assumir profissionalmente o ofício da escrita a partir de sua experiência no teatro como dramaturgo e encenador e, mais recentemente, como escritor por meio do romance “A Casa da Senhora H”, primeira investida profissional na Literatura. Foi vencedor do Prêmio de Dramaturgia do Clube dos Escritores de Ipatinga/ USIMINAS com a peça (inédita) “Oriana tem que morrer”.

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