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Este artigo foi escrito no dia 24 jun 2013, e pertence à categoria Resenhas.

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Resenha: O Retrato de Dorian Gray – Edição Anotada e Não Censurada [Oscar Wilde]

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A história é uma das mais famosas da literatura: um jovem belo e vaidoso tem seu retrato pintado por um amigo. Desesperado com a ideia de envelhecer e perder aquela aparência exuberante que vê representada na tela, faz uma súplica: se ao menos a imagem emoldurada pudesse envelhecer enquanto ele permanece jovem! O desejo é atendido, e Dorian Gray vê sua pintura ganhar rugas e marcas de preocupação sem que nada lhe ocorra.

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O Retrato de Dorian Gray foi lançado em 1891, e desde então recebeu dezenas de adaptações para o teatro e o cinema. Um detalhe, porém, sempre ficou nas sombras: a versão publicada no final do século XIX não era exatamente o que Oscar Wilde tinha em mente. Várias passagens do original do escritor irlandês foram retiradas ou alteradas por seu editor (e algumas pelo próprio Wilde).

Em 2011, o material de Wilde foi revisto e uma nova edição – com os textos integrais e notas explicativas – foi lançada pela Harvard University Press. Essa nova versão chega agora ao Brasil, sob o selo da Biblioteca Azul (Globo Livros) com tradução de Jorio Dauster. O Retrato de Dorian Gray: edição anotada e não censurada é mais que um item de colecionador, é leitura obrigatória para compreender melhor o romance de Wilde e entender a repulsa da população da época ao romance.

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A gente explica: antes de ser publicado como livro, O Retrato saiu como folhetim na revista Lippincott’s (como era comum na época), e logo gerou revolta nos críticos literários. O livro é altamente homoerótico, com insinuações e flertes que se prolongam ao longo de toda a narrativa. Para o público britânico da década de 1890, isso era uma terrível afronta à moral e aos bons costumes. Também por isso, Wilde foi condenado a 2 anos de prisão por sua conduta homossexual – e trechos d’O Retrato foram usados no tribunal para comprovar sua orientação sexual.

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O trio principal do livro é composto por Dorian Gray, Basil Hallward (amigo de Dorian e o pintor do quadro) e Lord Henry (um bon vivant inicialmente amigo de Basil que acaba se tornando um dos maiores confidentes de Gray). No primeiro capítulo, vemos Basil finalizando a pintura de Gray e apresentando-o a Lord Henry. Basil conta, em mais de um momento, sobre sua alegria em poder estar junto com Dorian Gray – e de como ficava feliz quando eles “andavam de braços dados” pelas ruas. Fica claro, em determinadas falas, que o pintor era apaixonado por Gray e não sabia muito bem como lidar com esses sentimentos.

Tudo isso já era bastante evidente na versão editada da obra, mas ver os objetivos originais de Wilde faz toda a diferença. A edição anotada mostra não só os trechos retirados como traz comentários pertinentes às falas dos personagens e coloca um plano de fundo histórico que é essencial para compreender o trabalho de Oscar – e o desenrolar da narrativa.

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Arte: The Affair

O homoerotismo chama a atenção no romance por ser o que motivou as revoltas na época – e em terras de Felicianos e Curas Gay, vale a pena louvar a mudança dos tempos que permite que hoje uma pessoa não seja encarcerada por sua orientação sexual – mas O Retrato fala de bem mais que isso.

Com sua alma aprisionada no quadro, Dorian perde mais que a capacidade de envelhecer: o eterno jovem vira um ser desprovido de emoções, que não consegue sentir plenamente o amor, remorso ou culpa. O Retrato é, sobretudo, a crítica de Oscar Wilde a uma sociedade onde o que mais importa é a aparência, onde o que se vê no espelho determina ser socialmente relevante ou não, e vale muito mais do que os valores de alguém.

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Cabe aqui também os parabéns ao tratamento gráfico da edição da Biblioteca Azul (eu, como designer gráfico, levo isso muito em conta!). Além da capa linda, com estrutura rígida e guardas impressas com ilustrações sobre a obra, a diagramação é impecável – algo difícil de encontrar em livros comentados. As notas vêm sempre nas páginas da esquerda, com cor diferente do texto e sem se intercalar com a história. O resultado é um ritmo fluido: se quiser, você lê as informações (ou seleciona as que te chamaram mais a atenção) ou segue somente acompanhando o texto tradicional.

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doriangray-capaO RETRATO DE DORIAN GRAY: EDIÇÃO ANOTADA E NÃO CENSURADA

Autor: Oscar Wilde
Título original: The Picture of Dorian Gray
Org: Nicholas Frankel / Trad: Jorio Dauster
2013, 342 páginas, Biblioteca Azul

Onde comprar?
Saraiva
Livraria Cultura
Estante Virtual (novos e usados)
Amazon (em inglês)

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Um exemplar do livro “O Retrato de Dorian Gray: Edição Anotada e Não Censurada” foi enviado como cortesia para a Literar pela Globo Livros / Biblioteca Azul.

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