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Este artigo foi escrito no dia 02 mai 2013, e pertence à categoria Resenhas.

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Resenha: Hell – Paris – 75016 [Lolita Pille]

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A felicidade é feita de amor, água mineral e Marlboro Light

Eu sou uma putinha. Daquelas mais insuportáveis, da pior espécie”. É assim que a personagem nos é apresentada, logo de cara, nas primeiras linhas do livro Hell – Paris – 75016. Poucos capítulos depois descobrimos que é a história de uma menina batizada como Ella, porém adota o nome Hell, por se sentir o inferno.

Ela é filha de um ricaço e tem o que quer sem fazer esforços: freqüenta os melhores lugares; humilha os atendentes; só veste roupas de marcas famosas; transa com quem acha interessante, paga o taxi dele de volta pra casa e nem se dá o trabalho de perguntar o nome; troca o dia pela noite; bebe e fuma o tempo inteiro; ocasionalmente, inala algumas carreiras de cocaína; e nunca precisou trabalhar.

Só por curiosidade, os números (75016) que acompanham Paris, no título, são indicativos de um quarteirão no melhor bairro da cidade, o 16ème, onde estão os metros quadrados mais caros da capital francesa.

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A obra, lançada no Brasil em 2003, expôs Lolita Pille, a autora, para todo o mundo. “Hell” foi traduzido para seis línguas e se tornou um best-seller. A forma sem escrúpulos e sincera com que Pille escreveu, chocou os leitores, mas também despiu uma verdade curiosa, atraindo o público.

Não existiria pessoa mais indicada para falar sobre o estilo de vida que Hell tem do que a própria escritora. Assim como a personagem, Lolita Pille é rica, gasta rios de dinheiro com roupas de grife, fazia uso de drogas e frequentava as festas mais badaladas.

Quando o livro foi lançado, Pille foi boicotada de seus círculos de amizades e até proibida de entrar em certas boates, já que muitas pessoas se viram retratadas na obra. A própria Lolita confirmou que não exagerou nos relatos, apenas romanceou a vida real.

Hell (ou Lolita?) não se importa com que as pessoas vão pensar sobre ela, não se incomoda em dizer o que sente e se isso pode magoar alguém. Qualquer pessoa que não seja tão rica quanto ela, deveria agradecer sua existência.

Apesar de ser uma babaca fútil, Hell tem sentimentos. Em certo momento da trama, começa a se relacionar com Andrea, um rapaz tão rico, frívolo e sacana quanto ela. A ligação dos dois parece que vai tirá-los das drogas e badalação, porém os sentimentos inconstantes fazem com que o desfeche seja surpreendente.

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A primeira vez que o li, eu tinha apenas 15 anos de idade e sempre que preciso de algo familiar, o coloco dentro da minha mochila. A publicação é pequena – 205 páginas, na edição da Intrínseca – e é composto com letras garrafais. A narrativa, talvez pela tradução, é um pouco pobre, mas mesmo assim, sempre achei o livro sensacional! Provavelmente é a obra que mais reli na vida.

“Hell” é um daqueles casos em que a personagem não é um exemplo de vida, um mártir, não tem bons hábitos, e mesmo assim se torna uma heroína. Sentimos compaixão, conseguimos entender seus sentimentos, mesmo que nunca tenhamos vivido nada daquilo. Torcemos para que ela seja feliz!

O livro já ganhou suas adaptações para o cinema e para o teatro. Em 2006, Hell chegou às telonas sob direção do francês Bruno Chiche, mas foge bastante da história original. De verdade? Não vale a pena assistir!

Nos palcos, aqui no Brasil, quem a interpretou foi a atriz gaúcha Bárbara Paz, dirigida pelo marido Hector Babenco. A peça estreou em 2010 e está até hoje em cartaz. Eu não assisti, mas só ouvi ótimos elogios à atuação e construção do espetáculo.

Algo que eu não poderia deixar de falar é sobre as canções “Avec le temps” e “La vie d’artiste”, do poeta e compositor Léo Ferré, que se tornam presentes com vários trechos das letras no decorrer do livro. As músicas casam com a história e se tornam a perfeita trilha sonora para acompanhar Hell.

Mesmo citando grifes e narrando uma rotina muito diferente da maioria das pessoas do mundo inteiro, “Hell” consegue mostrar que, apesar de poder ter tudo que alguém pode querer, há um vazio desesperador na personagem, uma vontade de encontrar algo que cubra a solidão. Já dizia o velho Caetano que “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é” e quem somos nós para discordar?

Uma das frases da obra se tornou minha citação preferida desde a primeira vez que li. Nela, Lolita Pille consegue expressar muito mais do que diz em vários capítulos: “A humanidade sofre. E eu sofro com ela”. Sempre pensei na sentença como algo muito mais amplo e, ainda assim, tão próximo. Eu sofro pelos que sofrem de amor; por aqueles que não têm o que comer; pelas tristes histórias que vejo na televisão; por aqueles que não sabem aproveitar as oportunidades da vida; pelas injustiças cotidianas; sofro pelos que se foram; por aqueles que se vão; sofro pelo o que deixei de fazer; sofro pela inércia e pelo comodismo; pelo medo do que pode ser o amanhã; sofro com medo da solidão.

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Autora: Lolita Pille
Título original: Hell
2002, 205 páginas, Editora Intrínseca

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