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Este artigo foi escrito no dia 04 set 2013, e pertence à categoria Resenhas.

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Resenha: As Intermitências da Morte [José Saramago]

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Algumas perguntas são comuns a toda e qualquer pessoa: quem somos, de onde de viemos, para onde vamos (ou, em bom mineirês: oncotô e poncovô). O que seria inusitado é alguém se perguntar: está bem, a morte é o trágico destino reservado a todos sem pedir licença para entrar, mas o que aconteceria se de repente ninguém mais morresse? Ao contrário das preces de vida eterna onde nunca envelheceríamos e esse mundo que nos cerca seria pra sempre nosso, As Intermitências da Morte traz um cenário bem menos animador.

O livro de José Saramago (lançado em 2005) mostra um único país no mundo onde, ao primeiro minuto que inicia um novo ano, as pessoas param de morrer. Acidentes graves, infartos do miocárdio, brigas violentas – nada disso importa. Desde aquele primeiro de janeiro, não se morre mais nos limites do país. Simples assim, complexo assim.

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O que começa como felicidade geral (teriam os céus atendido as preces do povo?) logo se mostra uma realidade desesperadora. Sem a morte, mesmo quem deveria morrer continua em estado de vida suspensa. Decapitações, velhice avançada ou tiros múltiplos de bala: ninguém morre. A vida não se esvai, mas também não volta, e quem ficara por um fio de morrer continua assim indefinidamente. Em pouco tempo os hospitais e asilos ficam lotados, e o governo precisa redefinir o que serão de planos de aposentadoria e seguros de vida.

No livro de Saramago, a própria morte é personagem (e se não dizemos que é a morte “em pessoa” é porque ela se sustenta apenas com o esqueleto – como todas aquelas representações que já vimos em pinturas e livros). E seu nome vem grafado assim mesmo, em minúsculas: a morte. A morte que envia cartas roxas e – com sua maneira peculiar de enxergar os vivos – conversa conosco.

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Arnold Böcklin – Self Portrait With Death

Ao longo do livro, Saramago brilhantemente inverte os papeis entre os vivos e a morte. Quando o caos se instala, o povo fica cada vez menos humano, chegando a fazer o papel de carrasco: surgem máfias dedicadas exclusivamente a levar os moribundos para atravessar a fronteira do país e poderem dar seu último suspiro em terras onde ainda é possível morrer. Enquanto isso, a morte vai, lenta e progressivamente, se tornando mais e mais humanizada. A epígrafe do livro – como sempre nos livros do Saramago – é perfeita síntese dessa visão: “Saberemos cada vez menos o que é um ser humano“.

Outra característica que chama atenção é a mudança de foco da trama. Ao invés de ficar estacionada. o pontapé inicial muda de figura, e de um evento geral passa-se a focar em personagens individuais (meio como acontece com Baltasar e Blimunda n’O Memorial do Convento). Em As Intermitências da Morte, a relação de destaque é entre a morte e um violinista que lhe desafia a lógica.

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As Intermitências é uma fábula contada em 200 paginas. Uma fábula sobre a importância de morrer e como esse simples fato altera a vida de todos que vivem. O livro tem uma estrutura cíclica, que surge como alegoria ao próprio ciclo da vida: tudo começa, cresce e morre. Até porque morrer é condição para que nasça o novo – como bem diria Machado de Assis em Quincas Borba.

Quem já leu nossa resenha sobre Todos os Nomes sabe que Saramago é meu escritor favorito (e meu projeto de vida é poder ser um quinto do que o escritor português foi). As Intermitências da Morte não é o melhor livro de Saramago, mas é, inegavelmente, uma leitura que faz pensar. Por vezes a narrativa parece descarrilhada, mas esse é só um artificio para mostrar que, no fim, as pontas soltas se encontram e o autor (e a morte, porque não?) tem sempre um plano para todos.

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saiba-mais

- Embora a referência não esteja nos créditos, As Intermitências da Morte foi a principal inspiração para a quarta temporada do seriado Torchwood. Para quem não sabe, a série é um spin-off da britânica Doctor Who. Nesse capítulo da história – intitulado Miracle Day – a história é independente do restante do seriado, o que faz com que você possa assistir os 10 episódios mesmo se não acompanhar a série desde o começo. Em Miracle Day, assim como no livro de Saramago, as pessoas deixam de morrer do dia para a noite, e daí surgem centenas de problemas. O trailer da temporada você vê aqui.

- Seguindo uma linha parecida, o filme Filhos da Esperança (no original, Children of Men) traz uma situação oposta em que, curiosamente, os resultados trágicos são bem parecidas. No filme do diretor Alfonso Cuarón, ninguém mais nasce. A população envelhece progressivamente, sem que novas crianças nasçam. A história se passa 17 anos após o último nascimento, e é muito bacana comparar o cenário que se instala aqui com o de As Intermitências da Morte. Clique aqui para ver o trailer.

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literar-intermitencias-capaAS INTERMITÊNCIAS DA MORTE

Autor: José Saramago
2005, 208 páginas, Companhia das Letras

Onde comprar?
Saraiva
Submarino
Livraria Cultura
Livraria da Folha
Estante Virtual (novos e usados)

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