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Resenha: A Morte de Ivan Ilitch [Tolstói] #SemanaRussa

Na semana em que se comemora o nascimento de Tolstói, a Literar preparou uma série de artigos homenageando a literatura russa. Confira nosso Especial #SemanaRussa clicando aqui.

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Existem livros que te levam a lugares fantástico. Alguns te mostram o sobrenatural e tudo que você nunca imaginou existir. E existem aqueles livros que vão mais fundo, mergulham na viagem mais turbulenta e intricada existente e nos mostram o que existe dentro de nós mesmos. Entra nesse último grupo a novela A Morte de Ivan Ilitch, do russo Lev Tolstói. Publicado em 1886, o livro é um retrato realista da angústia de se viver – e morrer.

O título é desses que já revela a que o livro veio: a história acompanha a trajetória que levou à morte de Ivan Ilitch. Ivan é um juiz que viveu uma vida bem dentro da caixa: formou-se em direito, progrediu em cargos nos empregos que ocupou, casou-se por achar que era o melhor a fazer, teve filhos e comprou uma casa. Enquanto decorava sua nova sala de estar, Ivan leva um escorregão e bate com as costas em uma quina. Achando que fora somente um acidente leve, continua com suas rotinas diárias normalmente.

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Autor: Frédéric Bazille

O desfecho da história não é nenhum segredo – até porque o título deixa bem claro qual será o final de Ivan Ilitch -, mas ao contrário de enfraquecer a narrativa, isso permite que Tolstói dê ainda mais realismo aos personagens. Cada situação suscita novos questionamentos, e à medida que a doença de Ivan progride, ele revê mais e mais o caminho que o fez chegar até ali. Pois sim: a queda gerou uma doença, mas que os médicos não sabem (ou não querem) diagnosticar. De fato, pouco importa se o problema físico de Ivan está no intestino ou no rim direito: seu verdadeiro dilema é psicológico.

Confrontado com a morte eminente, Ivan tem que encarar sua própria fragilidade. Logo ele, que achava que a morte era algo distante e intocável, a vê agora batendo a sua porta. Afinal, a morte é algo que acontece com os outros, certo? Os demais morrem, e nós, os vivos, permanecemos aqui, desfrutando de tudo que o mundo nos oferece.

No entanto, A Morte de Ivan Ilitch não é uma reflexão pessoal: é global. As dúvidas e sofrimentos de Ivan são naturais a qualquer um que respira e pensa. Encarar a própria fragilidade é tão terrível que inventamos desculpas para fugir dela: estudos, emprego, família, reformas na sala de estar.

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É interessante destacar na história de Ivan o papel desempenhado pelos médicos. Enquanto passa de mão em mão – todos renomados fisiologistas e clínicos, como seria de se esperar -, Ivan é tratado como um pedaço de carne que teve a infelicidade de apodrecer. Suas preocupações e queixas como paciente são deixadas de lado em prol da ciência: o rim deslocado vale mais que a dúvida se a doença é fatal ou não. Prova disso é que o maior conforto de Ivan é seu criado-enfermeiro, que passa horas conversando com o enfermo e tratando-o como ele realmente é: uma pessoa.

Não é a toa que Tolstói é considerado um dos maiores nomes da literatura russa (e mundial). Em uma novela curta, o escritor consegue mostrar de modo inquietante e questionador a fragilidade da nossa existência. Mais ainda, nos faz analisar a importância dos nossos valores e ter consciência que, eventualmente na vida de todos, essas coisas terão de ser colocadas na balança. Ler A Morte de Ivan Ilitch é como mergulhar nas próprias vísceras e se ver inundado por um oceano de auto-descoberta, cercado de perguntas que não tem resposta definida, mas que precisam ser discutidas.

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literar-ivanilitch-capaA MORTE DE IVAN ILITCH

Autor: Lev Tolstói
Título original: Смерть Ивана Ильича
2009, 96 páginas, Editora 34

Onde comprar?
Saraiva
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Amazon (em inglês)
Book Depository (em inglês)

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