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Resenha: Levantado do Chão [José Saramago]

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Durante 48 anos, um país vive sob o domínio de uma rigorosa ditadura militar. Com suas individualidades podadas, os cidadão se veem resignados a continuar calados, perpetuando seus trabalhos massacrantes, lavrando o solo dia após dia sem nunca ter um centavo nos bolsos e sempre enriquecendo os que desde há muito são ricos. Durante todo esse tempo, um sentimento de revolta surge, culminando finalmente em uma revolução que colocaria fim a esses duros tempos. Parece ficção? Não é. O que a gente narrou brevemente (põe brevemente nisso) é a história recente de Portugal, com o governo Salazarista e a Revolução dos Cravos de 1974.

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Passa por aí o pano de fundo de Levantado do Chão, romance de José Saramago lançado em 1980 e reeditado em 2013 no Brasil pela Companhia das Letras (junto com Memorial do Convento, que já comentamos aqui). E a gente diz que “passa por aí” porque, apesar desse ser o momento mais importante ao acompanharmos a saga dos Mau-Tempo ao longo das décadas, a história dessa família se inicia ainda no período monárquico português.

Levantado do Chão acompanha as mudanças sofridas na estrutura governamental de Portugal – e, principalmente, a situação social dos latifundiários – ao longo das décadas da história recente do país. À medida que as gerações passam – Domingos Mau-Tempo, João Mau-Tempo, António Mau-Tempo e tantos outros – diferentes cenários políticos surgem, enquanto uma constância permanece: a pobreza e a insatisfação dos trabalhadores do campo.

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Saramago é incomparável na arte da literatura histórica. Em Levantado do Chão, é impressionante a capacidade do escritor de refletir todas as angústias e ansiedades de um povo na figura de uma única família. Os Mau-Tempo são reflexo direto da ditadura: sem um tostão, são obrigados a trabalhar para grandes proprietários de terra que pagam misérias enquanto cobram horas extremamente longas de trabalho. Em um país onde não existe legislação para proteger os trabalhadores e o governo é financiado por grandes empresários, a quem o povo poderia recorrer? A resposta está na própria terra: a eles mesmos.

O livro é repleto de figuras de linguagem arrepiantes, a começar pelo próprio título. Vemos um povo que se recolhe da poeira que sobe com o vento nas terras secas e se junta para formar uma tempestade que mudaria o destino de toda uma nação. É a partir do levantar dos insatisfeitos que a barbárie existente em Portugal encontra um final. O povo grita pela terra que lhes pertence, seja ela o chão batido onde pisam ou toda a dimensão nacional que encontra-se na mão dos poderosos.

(…) Não é pelas oito horas e pelos quarenta escudos de salário, é porque é preciso fazer alguma coisa para não nos perdermos, porque uma vida assim não é justa (…) Não somos homens se dessa vez não nos levantarmos do chão, nem isso seja por mim, seja por meu pai que está morto e não torna a ter outra vida (…)

Eu não canso de repetir: leiam Saramago! Levantado do Chão é desses livros que te fazem se obrigar ler só um ou dois capítulos por dia – e não porque a leitura é cansativa, muito pelo contrário: lemos pouco a pouco para tentar prolongar a história dos Mau-Tempo, adiar o final e conviver por mais tempo com os personagens e suas lutas. Ver subir o pano da ditadura e encontrar por trás dele a luta de classes que briga pro condições dignas de trabalho, por salários decentes e horas justas. A luta do povo que exige uma vida pela qual valha a pena viver.

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literar-levantadochao-capaLEVANTADO DO CHÃO

Autor: José Saramago
1980/2013, 400 páginas, Companhia das Letras

Onde comprar?
Saraiva
Submarino
Livraria Cultura
Livraria da Folha
Estante Virtual (novos e usados)

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Um exemplar do livro “Levantado do Chão” foi enviado como cortesia para a Literar pela Companhia das Letras.

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