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Este artigo foi escrito no dia 12 jun 2013, e pertence à categoria +Literar.

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+Literar: Tem amor (até demais) por aqui

Tem amor até demais por aqui
por Édipo Bela

Com a chegada do dia dos namorados e meu ritmo de leitura não sendo dos melhores, resolvi abandonar temporariamente o livro que estava lendo (Orgulho e Preconceito) e me aventurar por terras livres de romance. Com isso, buscava tentar amenizar o fato de mais um ano se completar e eu passar essa data solteiro.

Me estrepei.

Eu não odeio essa data. Mas, assim como grande parte da população mundial, fui criado com muita papinha de bebê das Princesas Disney enfiada goela abaixo – ou seja: ensinado de que não é possível ser feliz sozinho. Nem a Mulan – que salvou todo o império da China “bendizê” sozinha – escapou de ser autossuficiente por mais de cinco minutos até que o general (que achava que ela era homem até aquele momento) virasse marido dela. Então, passar justamente essa dessa data sozinho é frustrante.

Eu normalmente passo bebendo, com o resto dos solteiros(as) do grupo.

Tendo em mente escapar de romance nessa data fatídica, iniciei a leitura de A livraria 24 horas do Mr. Penumbra. Li a sinopse, me interessei, achei em uma boa promoção e acreditei estar a salvo de ler a respeito de um casal. Deveria ter, sei lá, recomeçado Artemis Fowl, porque nem em um livro sobre um enigma em uma livraria o autor poderia ter deixado o protagonista sozinho.

Aliás, pra deixar claro: também não sou contra livros de romance. Meu livro favorito é O diário de Bridget Jones, parte pelo humor britânico (que me fez desenvolver um gosto por ChickLit anormal) parte por uma paixonite mal resolvida pré-pubescente pela Renée Zellweger, então minha birra não é essa. Minha questão é: Porquê é tão necessário, como muleta literária, colocar o protagonista em uma relação? Porquê, para completar o caráter dele, é necessária uma segunda pessoa?

bridget-jones

A personagem feminina de “Mr. Penumbra” é tão relevante para a história quanto foi o par romântico do “Jogador Nº1” nos volumes seguintes a Jogos Vorazes (acredito que, no primeiro livro, a tensão sexual entre os protagonistas era em duplo sentido – será que estavam fazendo isso pelo jogo ou será que era verdade? – e essa sutileza adicionou uma nova camada de complexidade à trama). O mesmo vale para o romance em Percy Jackson. E, sinceramente, eu ainda não engoli todo mundo fazendo casalsinho de festa junina no final de Harry Potter.

O que me deixa inclusive muito chateado nessa muleta é o fato do autor usar a personagem feminina como objetivo final ou como força motriz do personagem principal. Um recurso que talvez queira emular heroísmo mas que me remete uma ação masturbatória solitária do autor, além de objetificar e reduzir a personagem (normalmente mulher) à posição de posse. Recentemente, li Selvagens, Água para Elefantes e a trilogia de Jogos Vorazes - e os três usam essa dinâmica. É como ler Dan Brown, que conseguiu fazer com que eu tivesse o mesmo livro na estante três vezes (“Código da Vinci”, “Anjos e Demônios” e “Fortaleza Digital”) antes que eu percebesse isso.

romance capas

Existem livros em que as dinâmicas entre personagens são muito mais desenvolvidas: na trilogia Bússola de Ouro (provavelmente minha favorita, empatada com O Senhor dos Anéis), a tensão do “vai não vai” entre os protagonistas se revela muito mais interessante e pertinente á história do que o romance em si – isso e o fato de serem crianças (o que provavelmente torna tudo mais imoral). As Vantagens de Ser Invisível é um outro livro em que, por mais que exista um ou mais casais, eles não são o foco da estória e mostram-se essenciais para o desenvolvimento das personagens.  Não finalizei todos os exemplares de Artemis Fowl, mas os três primeiros são sensacionais e envolvem magia, mundos com personagens fantásticos – e mesmo assim ninguém precisa ficar de namorinho com ninguém.

Frustrado, pedi ajuda à minha amiga Anne, que tem um conhecimento literário muito (mas MUITO) maior que o meu e talvez pudesse me indicar um livro em que eu encontrasse eco no personagem principal e sua jornada solitária. Depois de muito pensar, quase sem encontrar, ela me indicou O Perfume, do Patrick Süskind, que diz ela ser sobre assassinato – o personagem só ama os cheiros e o mais próximo que chega de romance é ele se apaixonar pela fragrância de mulheres específicas.  Veremos!

romance perfume

Toda essa minha frustração começou mesmo por puro recalque: recalque dos casais de livros, recalque de quem faz na literatura o que eu não faço na vida real. Mas, e aí? Onde se estão as histórias de pessoas/personagens como eu?

Este artigo foi escrito pelo colunista convidado Édipo Bela, de São Caetano do Sul/SP.

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