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Este artigo foi escrito no dia 02 out 2013, e pertence à categoria Resenhas.

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Resenha: Memorial do Convento [José Saramago]

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Em quatro meses, essa é minha terceira resenha aqui na Literar sobre um livro de José Saramago. Tenho medo de soar repetitivo ao dizer que ele é, de longe, meu escritor favorito, mas ao mesmo tempo acho que essa é uma informação muito relevante ao entendimento dos meus comentários sobre suas obras. Memorial do Convento faz parte da leva de romances históricos produzidos por Saramago ao longo de sua carreira – para quem não sabe, um romance histórico é aquele que se situa em um momento histórico real para falar de personagens e situações fictícias. Desses livros, o único do autor que havia lido era O Evangelho Segundo Jesus Cristo, e encontrei no relançamento de Memorial do Convento pela Companhia das Letras a oportunidade perfeita de ler esse que foi um dos primeiros livros publicados pelo escritor português.

Memorial do Convento é muito relevante quando falamos desse caráter histórico da narrativa: o livro é exemplo perfeito da forma como Saramago consegue aliar o pessoal e o global. A história se inicia com os motivos que levarem à construção do convento do título. Como bom memorial, o romance tem na lembrança um ponto forte: vemos o desejo do rei D. João V de Portugal por um filho do sexo masculino, e como ele promete construir um convento na cidade de Mafra caso sua mulher engravide. A gravidez acontece e, embora seja uma menina sua primeira herdeira, a promessa feita deve ser cumprida.

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Entre um evento real e outro, somos apresentados a Baltasar Sete-Sóis e Blimunda. Ele, um ex-combatente que perdera na guerra uma de suas mãos. Ela, uma mulher de dons especiais, cuja mãe havia sido julgada e condenada bruxa pela Santa Inquisição. Blimunda enxerga o que os outros não vêem. Diferentemente da mulher do médico em Ensaio Sobre a Cegueira, a protagonista de Memorial do Convento tem realmente algo de mágico na sua visão: quando está em jejum, ela vê dentro dos olhos daqueles à sua volta e conhece seus desejos e medos mais profundos. Blimunda promete a Baltasar nunca olhar dentro dele, e cumpre sua promessa comendo um pão todos os dias, logo que acorda.

Outro personagem importante na narrativa é padre Bartolomeu de Gusmão e sua passarola. O padre (que foi uma figura real na monarquia lusitana), sonha em voar. Para isso, desenvolve um projeto para construção de uma engenhoca que imite o vôo dos pássaros e, aproveitando-se de conceitos da alquimia e das artes ocultas, suba aos céus usando a força dos raios solares e de poderosos ímãs. Quem auxilia padre Bartolomeu nessa empreitada é o casal Baltasar e Blimunda. Conhecendo o sobrenome de Baltasar, o padre dá a sua mulher um novo sobrenome: Blimunda Sete-Luas. Juntos, os três formam uma trindade (santíssima ou não, pouco importa) que tira o sonho da passarola do papel e o leva – literalmente – às nuvens.

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Memorial do Convento é, ao mesmo tempo, um relato dos inúmeros anos levados para a construção do convento de Mafra (que é hoje o Palácio Nacional de Mafra), e um olhar na vida de Baltasar e Blimunda. É como se o relacionamento simulasse a complicada construção: a primeira decisão é impulsiva, quase inconsciente. Vem depois a colocação da primeira-pedra, o marco zero na configuração do relacionamento. A isso segue-se o erguer das paredes, o fazer de si uma muralha que proteja dos perigos de fora. Há pedras de tamanho e peso descomunais que devem ser carregadas, há perdas ao longo do caminho. No final, o que se tem é uma linha de chegada que é, de fato, pouco importante se considerarmos todos os caminhos que tiveram de se cruzar e interligar para chegarmos ali.

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saiba-mais

- Blimunda é, sem dúvida alguma, uma das personagens mais fortes nos romances de Saramago. Também por isso, seu nome foi dado à publicação eletrônica mensal da Fundação José Saramago. Blimunda está em sua 16ª edição. Você pode conferir todos os volumes (que são de download gratuito) nesse link.

- Com o relançamento de Memorial do Convento e Levantado do Chão pela Companhia das Letras, a editora passa a publicar todos os livros de José Saramago no Brasil. Pode parecer preciosismo, mas esse era um desejo antigo do escritor, que sempre elogiou a condução de suas obras nas terras do lado de cá do Atlântico. Além de unidade gráfica e editorial, os livros passam a ser publicados (como os demais de Saramago na editora) com a grafia utilizada em Portugal – o que só reforça a fala de Saramago que “não existe uma língua portuguesa, existem línguas em português“.

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literar-memorial-capaMEMORIAL DO CONVENTO

Autor: José Saramago
1982/2013, 408 páginas, Companhia das Letras

Onde comprar?
Saraiva
Submarino
Livraria Cultura
Livraria da Folha
Estante Virtual (novos e usados)

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Um exemplar do livro “Memorial do Convento” foi enviado como cortesia para a Literar pela Companhia das Letras.

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