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Este artigo foi escrito no dia 21 nov 2013, e pertence à categoria Resenhas.

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Resenha: Menino de Ouro [Abigail Tarttelin]

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Você vai preencher um formulário de cadastro e precisa escolher: sexo masculino ou feminino? A pergunta é tão comum que passa despercebida pela maioria das pessoas. O problema com isso é o seguinte: o mundo não é bifásico. Dividir as pessoas em dois grupos e esperar que elas se comportem de forma heterogênea é, no mínimo, contestável. Felizmente, as últimas décadas têm trazido a tona uma questão extremamente importante: identidade de gênero é diferente de sexo. Para provar, estão aí centenas de casos de pessoas que visualmente refletem o sexo masculino e, na realidade, possuem genitália feminina – e o oposto também (pra quem andou na caverna, exemplos aqui, aqui e aqui).

Estranhamente, esse é um assunto que ainda aparece apenas pontualmente nas produções culturais de massa. Surpresa feliz foi descobrir Menino de Ouro, livro recém-lançado da inglesa Abigail Tarttelin. No romance, o protagonista não é menino nem menina. Max Walker é, ao mesmo tempo, os dois e nenhum deles. Portador de uma condição genética rara, o jovem de 16 anos possui ao mesmo tempo as genitálias externas masculina e feminina. Ele é um hermafrodita completo – ou, para usar o termo técnico, Max é intersexual.

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A trama de Menino de Ouro é cheia de surpresas e momentos de tensão. A história – que envolve abuso sexual, dificuldade de auto aceitação, inseguranças juvenis e problemas familiares, só para citar alguns -, já seria complicada se o protagonista fosse uma jovem garota, e a condição peculiar de Max só aumenta o grau de estresse. Max se enxerga como menino, mas sabe que, no fundo, é algo diferente. Entre provas de final de curso e seus dilemas de gênero, ele precisa lidar com o medo de ser rejeitado por seus amigos caso a verdade sobre si venha a tona e a ideia de jamais poder fazer sexo com uma garota (embora ele seja bem popular entre as colegas).

Não vou me delongar muito falando sobre a história do livro, por um motivo bem claro: na trajetória de Max, o caminho vale mais que o chegar. Todas as situações traumáticas pelas quais tem que passar servem para reforçar um pensamento que deveria ser evidente: cada um sabe da sua própria identidade. Querer atribuir identidades de gênero baseado na aparência ou, até mesmo, nas preferências sexuais, é absurdo. Max não é homem por desejar garotas ou por ter um pênis, assim como possuir uma vagina, útero e ovários não faz dele uma mulher.

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Menino de Ouro é um livro feito para incomodar. Melhor: é um livro feito para incomodar quem ainda acredita que casamento (e família) deve ser constituído de um homem, uma mulher e seus filhos legítimos. Incomoda quem acha que seus desejos devem ser definidos por seu exterior, e que o mundo pode ser dividido em caixas e colocado em estantes. Incomoda – e tem obrigação de incomodar – quem ainda acha que determinada identidade de gênero é superior a outra, a todos que defendem o “orgulho de ser heterossexual” e reclamam de uma ascendente “ditadura gay”. Max Walker é um tapa na cara de quem ainda vê o homossexualismo como doença ou algo não natural. E ele faz isso por ser exemplo vivo (ou fictício, entenda como quiser) da contradição no argumento de que “fomos feitos homem e mulher e devemos permanecer assim”.

Precisa falar mais ou já deu pra entender? Abigail Tarttelin merece todos os créditos por mostrar na forma de um romance leve e despretensioso que ser diferente é, essencialmente, normal.

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literar - menino de ouro - capaMENINO DE OURO

Autora: Abigail Tarttelin
Título original: Golden Boy
2013, 384 páginas, Globo Livros

Onde comprar?
Saraiva
Livraria Cultura
Estante Virtual (novos e usados)
Amazon (em inglês)
Book Depository (em inglês)

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Um exemplar do livro “Menino de Ouro” foi enviado como cortesia para a Literar pela Globo Livros.

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