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Este artigo foi escrito no dia 25 nov 2013, e pertence à categoria Resenhas.

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Resenha: Neve [Orhan Pamuk]

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Em 2006, Orhan Pamuk foi laureado com o Nobel de Literatura. Pesquisando sobre seus livros, fiquei imediatamente interessado em seus romances. Na época em que o turco recebeu a premiação, poucos de seus títulos haviam sido lançados no Brasil. Corri e comprei Neve logo na semana seguinte. Comecei a ler, mas achei a escrita muito densa – me esforcei por 20 páginas e achei melhor deixar para outra hora. Essa hora veio sete anos depois: há pouco tempo decidi dar uma segunda chance para o romance, e me arrependi de não ter feito isso mais cedo. Neve é um livro incrível.

A história acompanha Ka (que significa “neve” em turco), um poeta natural da cidade de Kars, interior da Turquia, em sua volta para casa após anos morando na Alemanha. O retorno, pelo menos a princípio, é justificado por seu interesse em estudar um grande número de suicídios de jovens islâmicas ocorridos na região. Chegando em sua cidade-natal, uma grande nevasca despenca e todas as estradas e acessos precisam ficar fechados. Nesse ambiente nada hospitaleiro para o quase-estrangeiro Ka, forma-se um microcosmos do que acontecia na Turquia à época.

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Para entender o livro, um pouco de revisão de história é preciso (e é interessante até falar da construção do país e do Império Otomano – já falamos de um livro sobre esse assunto aqui na Literar). Neve se passa na década de 1990, quando vigorava a obrigação das mulheres usarem as cabeças descobertas em determinados lugares (como fora sido exigido por Ataturk na década de 1920, época da criação da atual Turquia). Dessa exigência surge a onda de suicídios em Kars: impedidas de usarem o véu, as mulheres islâmicas preferem dar fim à sua vida que se exporem às impurezas do mundo.

Estimulados pelo isolamento causado com a nevasca, grupos políticos de oposição se manifestam dentro da cidade. Enquanto uma apresentação cultural é feita no teatro municipal, um golpe de estado se instaura. A distância entre ficção e realidade fica pouco delimitada, principalmente porque Kars é, nesse momento, uma representação da angústia que acomete o país inteiro.

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Curiosamente, a guerra trazida pelo golpe tem um poder revigorante sobre Ka. É nesse cenário desolador que ele reencontra o grande amor de sua vida e percebe que pode ser feliz novamente. Mais que isso, Ka descobre que consegue voltar a escrever poesias. Durante anos o escritor sofria de um forte bloqueio criativo. Chegando em sua cidade-natal, tudo muda: as poesias vêm em fluxo, algumas vezes uma atrás da outra e nos momentos mais diversos. Neve é, também, o nome de um dos poemas que Ka escreve – e que jamais poderemos ler, porque não aparecem em momento algum transcritos no livro de Pamuk.

A importância histórica e social do livro é inegável. Orhan Pamuk afirma que a literatura deve fazer com que a pessoa pondere sobre sua própria existência (e sobre a identidade do outro). Assim, Neve desponta como uma forma de fazer o povo turco refletir. O livro se situa, em parte, como um romance de fundo histórico – ele é baseado em um evento real para falar de situações fictícias e como elas afetaram a vida das pessoas (e continuam afetando ainda hoje). Mesmo assim, ser político não é seu ponto forte – ser verdadeiramente humano é.

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Autor: Orhan Pahmuk
Título original: Kar
2002/2007, 488 páginas, Cia das Letras

Onde comprar?
Saraiva
Livraria Cultura
- Submarino
FNAC
Estante Virtual (novos e usados)

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