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Este artigo foi escrito no dia 28 mai 2015, e pertence à categoria Resenhas.

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Resenha: Nu, de Botas [Antonio Prata]

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Com cinco anos de idade tomei uma decisão: eu não iria crescer. Era uma escolha racional, e fazia completo sentido que eu tivesse voto decisivo em um assunto assim importante. Os adultos eram complicados demais com suas palavras grandes e números impressos em papeis por todos os lados, e eu já tinha tudo que queria pra vida nas minhas brincadeiras de rua e desenhos animados da Manchete. Como vocês podem imaginar, fui vencido por forças mais poderosas que minha mente juvenil. Com quase trinta anos nas costas, o que me resta é recordar os episódios incríveis de uma infância já distante e tentar manter acesa dentro de mim a chama daquele menino que achava que podia controlar o tempo.

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Talvez com isso fique mais fácil entender como Nu, de Botas me deixou andando por aí com um sorriso no canto da boca durante vários dias. Ao contar casos da infância sob seu olhar de adulto (e, claro, com a consciência de que a visão de garoto é bem diferente daquela de homem), Antônio Prata não só me colocou em contato com suas histórias fascinantes, divertidas e emocionantes, como também fez com que eu revisitasse minhas próprias experiências como um ser recém chegado ao mundo.

Quem não se identifica com o moleque que tem o sonho – ou melhor, o terrível pesadelo – em que chega na escola e descobre que esqueceu de vestir as roupas? Nossa própria infância é evocada quando conhecermos a relação de Antônio com o divórcio de seus pais, presenciamos suas férias de verão ou vemos a descoberta da sexualidade alheia (ou “aquele estranho momento em que você aprende que o órgão entre suas pernas não é apenas para usar no banheiro e você jura pra si mesmo que nunca vai fazer essas coisas nojentas dos adultos”).

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Mas não é só pelo tema nostálgico que Antônio Prata ganha o carinho do leitor. A linguagem em Nu, de Botas, serve pra nos mostrar que, na verdade, a infância nunca vai embora. Quando relembra de todas aquelas situações e tenta colocar em si mesmo, adulto e responsável, os questionamentos e ideias de uma criança que ainda enxerga o mundo como uma selva a se desbravar, Antônio revive o moleque que existe dentro de todos nós.

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Eu não queria crescer, e eu tinha bons motivos pra isso. Mas se você quer saber, eu não me arrependo de ter sido obrigado a deixar para trás todas aquelas tardes vendo Cavaleiros do Zodíaco e colecionando figurinhas de chicletes. Afinal, tudo isso fez parte da construção do adulto que eu sou hoje. Ler Nu, de Botas me tirou as armaduras e deixou indefeso, de frente a mim mesmo com cinco anos e tendo que explicar a temida pergunta cabeluda: e aí? o que acontece quando eu crescer?

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Autor: Antonio Prata
2013, 144 páginas, Cia das Letras

Onde comprar?
– Saraiva 
– Amazon Brasil
Livraria Cultura
- Livraria da Folha
– Estante Virtual (novos e usados)
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Um exemplar do livro “Nu, de Botas” foi enviado como cortesia para a Literar pela Companhia das Letras.

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