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Este artigo foi escrito no dia 26 dez 2013, e pertence à categoria Escrita em Progresso.

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O inventário da casa: O lado de fora

A coluna “Escrita em Progresso” é feita pelo escritor, dramaturgo e encenador Juarez Guimarães Dias. Aqui você acompanha de perto a criação do romance “A Casa da Senhora HH”, que revela a história da Casa de Hilda Hilst, seus espaços e habitantes, entre personagens e objetos, mitos e narrativas, no período em que foi residência oficial da autora. A obra recebeu o Prêmio Biblioteca Nacional/ Funarte de Criação Literária, edição 2012.

26 de dezembro de 2013. A criação do romance “A Casa da Senhora HH” envolve uma pesquisa sobre a história de sua personagem protagonista, a Casa do Sol da escritora Hilda Hilst, partindo da produção de um inventário de seus espaços, histórias, objetos, mitos e personagens reais e ficcionais. Compartilho, portanto, uma síntese do inventário da Casa, que será desdobrada na escrita do romance, começando pelo lado de fora:

Não é uma casa qualquer. A Casa da Senhora HH tem como área edificada a extensão de um armazém ou de um generoso pátio de escola e reside num terreno da envergadura de uma chácara, construída em terras da antiga Fazenda São José, que pertenceu à sua mãe, a Senhora de Chapéus. De inspiração conventual e moura e em estilo colonial mineiro, como as casas das avós da Senhora HH, foi espaço de reclusão para sua produção artística, provocada pela leitura de “Testamento para El Greco”, do Kazantzakis (Nikos), que pregava o isolamento como essencial para se compreender o humano.

Chega-se à Casa depois de atravessar uma estrada de terra e encontrar o portal, monumento que estampa o emblema solar e em cujas grades está grafada a sigla de sua proprietária, HH. Não é uma passagem qualquer porque por ela cruza-se uma dobra do tempo, que ali tem uma qualidade especial. A campainha fica a cargo dos inúmeros cães que, ao ouvirem o ranger do portão, saem de onde estiverem para receber o visitante. É impactante, até para quem já esteve mais vezes, quando a matilha surge alvoroçada com seu concerto de latidos e costuma assustar e amedrontar os iniciantes.

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Imediatamente percebe-se a amabilidade dos cães que fazem companhia enquanto se percorre a alameda de palmeiras até a porta principal da Casa, cercada pelo Jardim das Maravilhas, invenção do tempo e da fruição com plantas e árvores exóticas, inspirado em Burle Marx, e pássaros que sobrevoam as copas das árvores. É um oásis no que já foi um descampado infindo de capim barba-de-bode, construído meticulosamente e diariamente pelo Sapo-Zé, que amava a terra e os animais. O Jaridm circunda toda a Casa e pode ser percorrido por inúmeros caminhos de pedra, onde se pode encontrar, se der sorte, um unicórnio se alimentando de suas plantas, ou ser surpreendido pelo pouso extravagante de uma bola-disco-voador que iluminou aos faróis toda a entrada, deixando bestas a Senhora HH e Danton-Brucutú, num tempo em que a Casa vivia de lampiões a gás.

Jardim das Maravilhas é também morada de muitos mortos, as cinzas do Sapo-Zé, que às vezes se metamorfoseia em Orlando, outro de sua espécie, e também Duda, sobrinho da Senhora HH. Debaixo da sombra da Figueira estão Nenê, Aninha, Sílvia e outros cães que habitaram a Casa, enquanto nos fundos, junto aos canis e sob um imponente flamboyant, reside entre eles o Preto-Barqueiro que o Senhor A ajudou a enterrar com suas próprias mãos ao lado da Pequena Olga, Dani e GG. A Senhora HH também estaria enterrada ali, se nos tempos finais preferisse seu corpo em outra morada. Entretanto, a Casa e a Senhora HH são sentença indivisível, um só estado de alma, como dizia o Bachelard, uma só presença.

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Antes de entrar no corpo da Casa, à direita depara-se com um dos monumentos naturais mais belos que reside naquelas terras: uma Figueira centenária, na verdade um enlace profundo de duas espécies altas, de copas abastadas e troncos monumentais (onde se tecem teias de aranhas e assolam cupins) que se transformaram numa só imagem.  Entidade guardiã da sabedoria daquelas terras, atende pedidos em noites de lua cheia, não falta quem tenha provas, todo mundo sabe. Aos seus pés, a Senhora HH ergueu um conjunto de mesas e cadeiras de pedra, de onde durante meses observou a construção da Casa sob o conforto da sua sombra. Segundo consta, o tampo da mesa perdeu sua originalidade ao ser partido ao meio pelo assento robustíssimo de um comediante e entrevistador da televisão. A Figueira tudo observa e guarda: quem veio tomar um vinho à luz de velas para ouvir a noite, ou viajar no balanço suspenso por um de seus galhos, ou abraçar-lhe para receber boas vibrações, ou meditar ou trocar confidências e juras de amor. De seus inúmeros pedidos atendidos, há aquele que alterou radicalmente a voz de um escritor, de um afeminado envergonhado e tímido por um grave e articulado falastrão. É uma Casa mágica e a Senhora HH bem o sabia.

O que está achando dessa escrita em progresso? Converse com o autor: juarezgdias@gmail.com. Siga os passos da criação no Facebook: /juarezgdias

saiba-mais

Juarez Guimarães Dias é mineiro, radicado em Belo Horizonte, e nasceu em 14 de abril de 1978 em Conselheiro Lafaiete. É Doutor em Artes Cênicas (Unirio), Mestre em Literatura (PUC-Minas) e Bacharel em Comunicação Social (Uni-BH). É escritor, dramaturgo e encenador, designer gráfico e professor do Centro Universitário de Belo Horizonte (Uni-BH), onde é docente do curso de Publicidade e Propaganda. É autor de “O fluxo metanarrativo de Hilda Hilst em ‘Fluxo-floema’” (Ed. Annablume, 2010), obra oriunda de sua dissertação de Mestrado. Atualmente desenvolve o romance literário “A Casa da Senhora H” sobre a Casa do Sol da escritora Hilda Hilst, projeto contemplado pelo Prêmio Funarte/ Biblioteca Nacional de Criação Literária 2012.

Desde a infância tem apreço por livros (especialmente por romances e contos), o que o levou também a escrever literatura e a produzir jornais aos 11 anos de idade. Desde então, coleciona uma produção (não publicada) de 7 romances, 30 contos, alguns poemas e letras de música, crônicas, roteiros e dramaturgias e muitos textos inacabados. Entretanto, só assumiu profissionalmente o ofício da escrita a partir de sua experiência no teatro como dramaturgo e encenador e, mais recentemente, como escritor por meio do romance “A Casa da Senhora H”. Foi vencedor do Prêmio de Dramaturgia do Clube dos Escritores de Ipatinga/ USIMINAS com a peça (inédita) “Oriana tem que morrer”.

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