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Este artigo foi escrito no dia 09 jan 2014, e pertence à categoria Escrita em Progresso.

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O Senhor A (autor)

A coluna “Escrita em Progresso” é feita pelo escritor, dramaturgo e encenador Juarez Guimarães Dias. Aqui você acompanha de perto a criação do romance “A Casa da Senhora HH”, que revela a história da Casa de Hilda Hilst, seus espaços e habitantes, entre personagens e objetos, mitos e narrativas, no período em que foi residência oficial da autora. A obra recebeu o Prêmio Biblioteca Nacional/ Funarte de Criação Literária, edição 2012.

9 de janeiro de 2014. Além dos personagens reais, “A Casa da Senhora HH” tem seus seres inventados: o Senhor A, Autor do romance, é quem dá vida à Casa como narradora, num enredo que sobrepõe duas realidades temporais distintas, onde ele transita: O Senhor A investiga a história da Casa, que conheceu e frequentou, enquanto pela literatura a reconstrói como personagem protagonista. Ei-lo:

“O Senhor A é muitíssimo discreto e por isso está sempre adiantado: a vaidade faz o sujeito andar um passo pra frente e dois para trás. Por vezes nota-se sua presença como a de uma mosca, ainda que ele não seja das mais impertinentes. Uma barata, ao contrário, jamais conseguiria tamanha diminuição. Uma mosca sim. E há outro detalhe: o Senhor A fala mais pela escrita que pela boca, e não porque lhe falte dentes, todos vão muito bem cuidados sim senhor. Ele tem medo de dizer em voz alta o que pensa. Por isso, suas enormes e pontiagudas orelhas muitas vezes são obrigadas a ouvir tudo que se diz por aí, à sua volta, principalmente quando não o percebem.

Ele está certo de que um dos assuntos mais acessíveis pras gentes é a vida dos outros, disso nos ocupamos desde que o mundo é mundo, que o céu é céu, santo Deus. O Senhor A tem, claro, uma escuta ampliada e orelhas de fazer inveja em qualquer lobo-mau. Só lhe resta aproveitar o que lhe chega aos ouvidos e escrever, transformar em ficção, afinal é assim que as mesmas histórias são contadas desde sempre e vão passando de uns para os outros. Sim, o Senhor A é um escritor, mas não um qualquer. O Senhor A é um escritor que nunca publicou seu trabalho. O Senhor A, portanto, é um escritor sem leitor. Ele teme a própria covardia.

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O Senhor A vai morrer numa segunda-feira, saindo para o trabalho (é professor) e um tanto incomodado com dores de coração que, exatamente neste dia já adiantado, voltarão a insistir de forma definitiva e sem tréguas: “Músculo involuntário”, dizia a canção. Assim, nos últimos meses, vinha pensando bastante no coração, coração-músculo coração-amor coração-paixão coração-signo-símbolo coração-artérias-infarto. Porque, sabia, VIVER é isso: Você está tranquilo fazendo suas coisinhas, dando mais alguns novos passos e, num repente, desliga-se o músculo. Em segundos. Você não vê nada. Trevas. Haverá consciência? Quem dirá.

Por hora, sabe-se que o maior medo do Senhor A era morrer sozinho, não exatamente pela possível falta de alguém para segurar sua mão e dizer adeus (e ele percebia isso como um grande clichê), mas para dar cabo do corpo, devolvê-lo à Terra, repetindo o gesto inaugural do amor da nossa frágil humanidade. Temia ser atirado ao léu como o irmão de Electra. E é por não saber o que acontece depois do curto-circuito-final que ele pensava tanto no corpo, na solidão de morrer sozinho. Ao pó retornarás, sentença inevitável. Mas sua imortalidade estará reservada numa obra que o Senhor A escreveu e ninguém leu, secretada numa caixa-herança. Só depois da visita da Grande Senhora, o Senhor A poderá ser inteiramente descoberto.

Mas por enquanto, o Senhor A está bem vivo, obrigado, arrumando suas malas para, finalmente, conhecer a Senhora HH.”

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saiba-mais

Juarez Guimarães Dias é mineiro, radicado em Belo Horizonte, e nasceu em 14 de abril de 1978 em Conselheiro Lafaiete. É Doutor em Artes Cênicas (Unirio), Mestre em Literatura (PUC-Minas) e Bacharel em Comunicação Social (Uni-BH). É escritor, dramaturgo e encenador, designer gráfico e professor do Centro Universitário de Belo Horizonte (Uni-BH), onde é docente do curso de Publicidade e Propaganda. É autor de “O fluxo metanarrativo de Hilda Hilst em ‘Fluxo-floema’” (Ed. Annablume, 2010), obra oriunda de sua dissertação de Mestrado. Atualmente desenvolve o romance literário “A Casa da Senhora H” sobre a Casa do Sol da escritora Hilda Hilst, projeto contemplado pelo Prêmio Funarte/ Biblioteca Nacional de Criação Literária 2012.

Desde a infância tem apreço por livros (especialmente por romances e contos), o que o levou também a escrever literatura e a produzir jornais aos 11 anos de idade. Desde então, coleciona uma produção (não publicada) de 7 romances, 30 contos, alguns poemas e letras de música, crônicas, roteiros e dramaturgias e muitos textos inacabados. Entretanto, só assumiu profissionalmente o ofício da escrita a partir de sua experiência no teatro como dramaturgo e encenador e, mais recentemente, como escritor por meio do romance “A Casa da Senhora H”. Foi vencedor do Prêmio de Dramaturgia do Clube dos Escritores de Ipatinga/ USIMINAS com a peça (inédita) “Oriana tem que morrer”.

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