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Este artigo foi escrito no dia 13 jun 2013, e pertence à categoria Resenhas.

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Resenha: O Pacifista [John Boyne]

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A primeira coisa a se falar sobre O Pacifista é que essa não é uma história de amor. Ou melhor: não é uma história onde um homem e uma mulher se apaixonam e vivem felizes para sempre.

Ganhei o livro do John Boyne (de O Menino do Pijama Listrado e O Garoto no Convés, entre outros) no meu aniversário, e devorei as páginas em poucos dias. A história se passa em 1919, logo após o fim da Primeira Guerra Mundial. Tristan Sadler é um ex-soldado londrino com pouco mais de 20 anos que vai à cidade de Norwich para se encontrar com a irmã mais velha de um de seus companheiros combatentes, Will Bancroft. Tristan deseja entregar a Marian Bancroft as cartas que ela enviara ao irmão e que acabaram ficando com Tristan após a morte de Will nas trincheiras, Desde o começo fica claro que algo terrível aconteceu, e que Sadler se arrepende profundamente daquilo. A história corre como se Sadler estivesse relembrando tudo aquilo enquanto se encontra com Marian.

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A trama inicial lembra muito Reparação, do Ian McEwan (e já falamos dele aqui na Literar), e essa referência é inclusive citada na orelha do livro. O Pacifista é uma historia sobre o efeito que temos na vida dos outros, sobre lutas pessoais e autoaceitação. É, sobretudo, uma história sobre o arrependimento.

Além do trauma da Grande Guerra (Tristan é o único soldado que volta vivo de seu batalhão e sofre claramente de stress pós-traumático), um outro tema principal está presente: a homossexualidade. Mais que isso, a dificuldade em se aceitar homossexual na decada de 10 – e ser um soldado homossexual lutando na guerra. Tristan é homossexual, e ficamos sabendo disso claramente através dos relatos de memórias da sua juventude e de como foi expulso de casa pelos pais após demonstrar interesse por um colega da escola. Sadler alterna entre aceitar sua própria natureza e sentir vergonha de si mesmo – provavelmente uma resposta natural de uma sociedade que sentia a necessidade de higienizar com a maior cautela quartos de hotel que eram usados por gays.

Tristan se inscreve para a guerra, e no acampamento preparatório conhece Will Brancroft. Rapidamente os dois se tornam melhores amigos e, em determinado momento, os dois se beijam e passam a noite juntos. O problema é que Will não se aceita como homossexual. A manhã seguinte chega e Will passa a ignorar Tristan completamente. Ele inventa desculpas, se arrepende e fica com raiva de seu amigo por despertar nele aqueles sentimentos.

O romance entre os dois fica implícito o tempo todo – mesmo antes de Tristan narrar sua primeira noite com Will, o autor sugere que há uma ligação entre os dois personagens. A partir daí, uma cadeia de eventos se desenrola levando ao grande trauma do qual Sadler tanto se arrepende. O evento chave do livro fica para o final, mas seu fantasma permeia todo o livro: Tristan tomou alguma atitude que gerou consequencias terriveis e já não havia como voltar atrás. De certa forma, sua conversa com Marian vira sua busca por redenção, um pedido de desculpas por se sentir responsável pela morte de Will.

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A narrativa tem uma estrutura bacana de vai-e-volta. A cada capitulo vemos ora Tristan no presente se encontrando com Marian, ora temos flashbacks do treino preparativo para a guerra, da guerra em si e da adolescência do jovem. Tudo isso em primeira pessoa, contado diretamente por Sadler.

Há ainda duas histórias paralelas que sao essenciais para a obra. A primeira delas é o despejo de Tristan de casa quando seus pais descobrem sua homossexualidade. O segundo é o caso do soldado Arthur Wolf, que se recusava a lutar na guerra (e, por isso, chamado de “galinha branca” pelos demais). Wolf é assassinado pelos militares ainda no acampamento preparatório por causa de suas crenças, numa tentativa de evitar que os demais se comportassem da mesma forma. As duas historias são definidoras para a trajetoria de cada personagem. A morte de Will é, em parte, resultado das ideias expressas por Wolf. Em determinado ponto – já durante a guerra -, Will decide que a luta não levará a lugar nenhum: ele se torna um “pacifista”.

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A narrativa deixa a mensagem que vale a pena defender seus ideais, mesmo que eles pareçam impossíveis: seja o desejo de expressar livremente sua sexualidade na sociedade ou recursar-se a lutar em uma guerra que não é sua.

O Pacifista é um livro que, mesmo ambientado na década de 1910, traz um tema super atual – e que precisa de cada vez mais discussão. A história é curta e a leitura é rápida e inteligente. Não é uma história alegre, não há finais felizes e beijos com fogos de artifício – os personagens são reais, humanos e falhos. Sem dúvidas, um ótimo livro e um excelente presente de aniversário.

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Autor: John Boyne
Título original: The Absolutist
2012, 304 páginas, Cia das Letras

Onde comprar?
Saraiva
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Amazon (em inglês)
Book Depository (em inglês)

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