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Perfil: Marcel Proust

Muitos motivos para ler Proust

Imagine-se comendo algo que remeta a sua infância. Pode ser uma bala de caramelo, ou até mesmo um pirulito de morango, daqueles macios. Agora, se lembre do que o gosto disso na sua boca te remete. Pode ser uma ida à casa da avó, uma volta da padaria com o seu pai ou até mesmo um furto na loja de doces. No meu caso, imagino panquecas. Não recheadas nem nada do tipo, apenas a massa temperada. O cheiro da massa da panqueca naquele momento em que encosta na frigideira traz algumas das melhores lembranças da minha infância.

Na maioria dos domingos minha mãe fazia panquecas e só de sentir aquele cheiro eu pulava da cama. Eu comia até não poder mais. Sobravam tantas panquecas que minha mãe as guardava no forno para que eu comesse mais tarde. O domingo era seguido de desenho na TV e depois Fórmula 1. Eu era feliz. Não é a toa que panqueca se tornou meu prato favorito. Seu gosto me traz felicidade.

Esse tipo de sensação, de se lembrar de algo quando você sente um cheiro ou um gosto, se chama memória involuntária. É o que acontece quando você vê uma foto. Quando você a vê, se lembra exatamente daquele momento em que foi tirada. Possivelmente, se não fosse a fotografia para eternizar aquele momento você não se lembraria. Seria mais uma parte de sua vida que ficaria esquecida para sempre. É a partir desse princípio que Marcel Proust (1871 – 1922) iniciou sua principal obra: Em busca do tempo perdido.

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Em No caminho de Swan, Proust começa sua série de livros a partir do famoso Episódio da Madeleine. O personagem morde um desses bolinhos molhado no chá e recorda de quando era criança, quando ia a Cambray.  Chegar a sentir novamente o medo da noite. O medo de ir dormir e deixar de ter sua mãe por perto, para receber visitas. Entre seus devaneios e recordações, o personagem conta sua história, seu crescimento e suas descobertas.

A história continua em mais seis livros: À sombra das raparigas em flor, O caminho de Guermantes, Sodoma e Gomorra, A prisioneira, A Fugitiva e O Tempo redescoberto. O papel da memória é central por todo o romance. Quando a avó do narrador morre, a sua agonia é retratada como um lento desfazer; em particular, as suas memórias parecem ir-se evaporando dela, até já nada restar. No último volume, O Tempo Reencontrado, o autor faz com que o narrador recue no tempo das suas memórias, em episódios desencadeados por recordações de cheiros, sons, paisagens ou mesmo sensações táteis.

Outras temáticas são retratas na obra. A arte – principalmente a música – é protagonista, principalmente para falar da transformação do dia-a-dia em algo revelador e maduro. O homossexualismo é parte significativa. Os cenários, os mais diversos. Desde Cambray, onde estão as raízes familiares, passando por Paris – os jardins dos Champs-Élysées, ou seu apartamento – Balbec, Doncières e até mesmo Veneza.

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Muitos supõem que a própria vida de Proust serviu de inspiração para a obra. Sua infância em Illiers serviu como base para a cidade fictícia de Cambray. Sua homossexualidade assumida e defendida é fundamental aos personagens. A estreita relação com a mãe tem reflexo nos livros. Seus conflitos interiores o impulsionaram a escrever e buscar a razão das memórias e esquecimentos. Morreu esgotado de escrever, de viver, acometido por uma bronquite mal curada.

Na última semana, no dia 10 de julho, Proust comemoraria 142 anos. A Globo Livros relançou, pela Biblioteca Azul, todos os livros do Em Busca do Tempo Perdido, e vale dizer que está um primor de se ver e ler! O último, Tempo redescoberto, lançado recentemente, apresenta o entendimento de tudo, o princípio.

Em Busca do Tempo Perdido, Vol. 7: O Tempo Redescoberto
Onde comprar: 
Cultura | Estante Virtual

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Ler Proust é difícil. No entanto, é um autor para se debruçar. Se esquecer do seu tempo e sua história e mergulhar num universo e numa época completamente distinta. É para se deleitar e chegar a sentir o gosto da Madeleine mergulhada no chá; É para sentir a noite e o que ela traz. Se apaixonar e se iludir. E, acima de tudo, compreender do que é feito um grande escritor.

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