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Este artigo foi escrito no dia 30 set 2013, e pertence à categoria Resenhas.

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Resenha: Quincas Borba [Machado de Assis]

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Ontem (29 de setembro de 2013) completou-se 105 anos da morte do maior escritor brasileiro de todos os tempos. Você pode até ter birra de ter sido obrigado a ler Machado de Assis no colégio, mas vai ter que concordar com a gente em uma coisa: o criador da Academia Brasileira de Letras realmente foi um autor brilhante.

Quincas Borba foi o primeiro livro de literatura nacional que li que me fez encarar a literatura com outros olhos. Como a maioria das pessoas, meu primeiro contato com Machado de Assis foi durante o ensino fundamental – e Machado me atingiu como um caminhão desgovernado (como acredito que seja para a quase totalidade de jovens leitores). Quer dizer, eu estava acostumado a ler os livros da Coleção Vagalume, e de repente encarar a profundidade de um livro como Quincas Borba (ou Memórias Póstumas de Brás Cubas ou Dom Casmurro) é um pouco chocante! Frequentemente volto aos meus livros favoritos do grande Machado, e é impressionante como a cada leitura passagens que permanecem iguais no papel podem mudar tanto na maneira de lê-las (e eu até falei um pouco sobre isso na resenha de Todos os Nomes).

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O livro faz parte da fase realista de Machado de Assis. Além dela, o escritor teve um período romântico (de onde saíram, entre outros, livros como Helena – que a gente já falou aqui) Apesar de apontar desde então sua predileção por uma narrativa mais realista (e, por alguns aspectos, pessimista) do mundo, os temas apresentados nessas duas fases são muito distintos. E, de fato, ler Helena e Quincas Borba são duas experiências muito diferentes. Machado é um autor de múltiplas personalidades, e isso fica claro nos seus textos.

Quincas Borba é uma continuação independente de Memórias Póstumas de Brás Cubas. Continuação porque o personagem que dá titulo à obra surgiu em Memórias, mas independente porque, apesar de usá-lo como plano de fundo, a história do livro é focada em Rubião, e sua narrativa é independente o suficiente para que quem não leu o primeiro livro possa acompanhar o segundo sem problema algum. Na sua técnica característica de conversar com o leitor a todo momento como se fossem velhos amigos, Machado inclusive cita seu outro título: “Este Quincas Borba, se acaso me fizeste o favor de ler as Memórias Póstumas de Brás Cubas, é aquele mesmo náufrago da existência, que ali aparece, mendigo, herdeiro inopinado, e inventor de uma filosofia

Em resumo, a história acompanha a vida adulta de Rubião de Alvarenga. Rubião era enfermeiro e amigo de Quicas Borba. Durante anos eles foram como mestre e discípulo, e Quicas explica a Rubião sua visão de mundo e como ele entende as relações humanas. Quando Quincas morre (na casa de Brás Cubas), o amigo descobre que o filósofo deixou em testamento toda sua fortuna para ele – e um cachorro que levava o mesmo nome do falecido. Imediatamente milionário, Rubião se muda de Barbacena para o Rio de Janeiro, onde vive o bom e o melhor que a capital do país tem a lhe oferecer. Com o tempo, Rubião começa a apresentar sintomas estranhos (para dizer o mínimo), entre eles delírios de grandeza, acreditando piamente que era Napolão III, imperador da França e importante figura política mundial. O poder sobe – literalmente – à cabeça de Rubião, sem que ele se dê conta do que está acontecendo.

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Se há uma frase que se destaca em tudo isso, é “ao vencedor, as batatas“. Ela faz parte da filosofia humanitas desenvolvida por Quicas Borbas: para ele, tudo na vida acontece com ganhos e perdas. Usando a metáfora de um monte com batatas e dois povos que disputam o uso desse terreno, Quincas mostra que, para um dos lados sobreviver o outro precisa padecer. Para toda vitória, existe um outro lado (ou um outro alguém) que foi deixado na miséria. E Rubião é, em todos os aspectos, a perfeita personificação disso! É possível até dizer que, em certo nível, Quincas deixa sua herança para Rubião para provar um argumento: que, de fato, a ruína de uns é o sucesso de outros. Sem a morte do filósofo, Rubião jamais saberia o que era tamanha riqueza. Por outro lado, quando Rubião começa a enlouquecer, seus antigos amigos do Rio ficam excitados perante a ideia de poder colocar suas mãos em parte daquela herança. Uns ganham, outros perdem.

“Não há morte. O encontro de duas expansões, ou a expansão de duas formas, pode determinar a supressão de uma delas; mas, rigorosamente, não há morte, há vida, porque a supressão de uma é a condição da sobrevivência de outra, e a destruição não atinge o princípio universal e comum. Daí o caráter conservador e benéfico da guerra. Supõe tu um campo de batatas e duas tribos famintas. As batatas apenas chegam para alimentar uma das tribos, que assim adquire forças para transpor a montanha e ir à outra vertente, onde há batatas em abundância; mas, se as duas tribos dividirem em paz as batatas do campo, não chegam a nutrir-se suficientemente e morrem de inanição. A paz, nesse caso, é a destruição; a guerra é a conservação. Uma das tribos extermina a outra e recolhe os despojos. Daí a alegria e ousadia da vitória, os hinos, aclamações, recompensas públicas e todos os demais efeitos das ações bélicas. Se a guerra não fosse isso, tais demonstrações não chegariam a dar-se, pelo motivo real de que o homem só comemora e ama o que lhe é aprazível ou vantajoso, e pelo motivo racional de que nenhuma pessoa canoniza uma ação que virtualmente a destrói. Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas.”

Machado é um autor para ser lido e relido diversas vezes. E isso não apenas porque suas histórias são atemporais e nunca ficam cansativas, mas porque ele possui o poder de nos fazer relacionar fatos completamente distantes às nossas próprias vivências. Quincas Borba se passa no Rio de Janeiro do final século XIX, mas é retrato fiel da loucura do milênio em que vivemos: querer sempre mais, tentar ir sempre além, mesmo que isso signifique soterrar as batatas dos outros.

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literar-quincasborba-capaQUINCAS BORBA

Autor: Machado de Assis
1892, em torno de 350 páginas, Domínio Público

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