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Resenha: As Relações Perigosas [Choderlos de Laclos]

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Um homem dedicado aos prazeres do corpo traça uma meta: fazer com que uma outra mulher – casada e muito religiosa – torne-se sua amante. Não por amor ou desejo, apenas pelo simples prazer de vê-la corromper seus ideias em favor da satisfação sexual. Se a trama parece modernosa para nossos padrões atuais, imagine qual foi a reação do público ao se deparar com essa história em pleno século XVIII. O responsável por isso? Choderlos de Laclos, um oficial do exército francês que escreveu em sua vida um único livro: As Relações Perigosas, um clássico da literatura libertina e marco da história francesa pré-revolução.

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As Relações Perigosas é construído exclusivamente a partir de cartas. Existe um narrador que pouco se manifesta e se apresenta apenas como alguém que teve acesso àquelas cartas e decide compartilhar com o público suas histórias. Ele é quase um narrador-historiador, apresentando os fatos (mesmo que fictícios!) e deixando que o próprio leitor tire suas conclusões.

Os principais personagens do livro são o visconde de Valmont e a marquesa de Merteuil, verdadeiros representantes da nobreza francesa e defensores de um estilo de vida libertino. Durante toda a história, os dois arquitetam planos e malabarismos para fazer com que outros entrem em seus jogos de prazer – criando, de fato, relações perigosas caso algum deles fosse descoberto pela sociedade -, mantendo para os demais a todo instante uma imagem de si tão pura quanto possível.

O clássico de Choderlos de Laclos começa com dois planos de ação que inevitavelmente se cruzam. Visconde de Valmont escolheu sua nova vítima: a presidente de Tourvel é uma mulher bem casada, fiel ao seu marido e aos preceitos cristãos. Convenientemente, está passando uma temporada na casa da tia do visconde, e é aí que ele encontra a oportunidade perfeita para seduzi-la e tentar jogar por terra suas crenças monogâmicas. Pouco a pouco, o visconde se insinua para a presidenta através das cartas que a envia, mostrando claramente que seu amor por ela não pode ser controlado – e forçando inconscientemente que a presidenta o deseje também, colocando-a em uma luta moral interna.

A marquesa de Merteuil, por sua vez, tem um roteiro próprio. Ela é correspondente de Cécile de Volanges, uma jovem que vivera por anos em um convento e fora retirada por sua mãe, que desejava casar-lhe com um homem mais velho. Cécile aceita o arranjo, mas secretamente deseja Danceney, um rapaz amigo da família que lhe auxiliava no ensino da harpa. Entra aí a marquesa: aconselhando Cécile, instrui-a a não desistir de seu amor juvenil, mesmo que isso signifique trair seu futuro marido.

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O livro foi terrivelmente criticado à época de seu lançamento (mais precisamente, em 1782), como seria de se esperar. Afinal, uma história que coloca a nobreza parisiense como devota da libertinagem com certeza faria com que os ricos burgueses se revoltassem! Choderlos de Laclos chegou a ser processado e seu livro foi condenado à extinção. Felizmente, isso não aconteceu, e As Relações existe não só como retrato da sociedade nos anos que antecederam a Revolução Francesa como um grande título da literatura libertina.

A tradução brasileira é primorosa, e também não seria por menos: feita por Carlos Drummond de Andrade (que também assina o prólogo na atual edição), o livro foi recentemente relançado pela Biblioteca Azul. Um clássico para ler e reler.

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literar-relacoes-capaAS RELAÇÕES PERIGOSAS

Autor: Choderlos de Laclos
Título original: Les Liaisons Dangereuses
Trad: Carlos Drummond de Andrade
2013, 517 páginas, Biblioteca Azul

Onde comprar?
Saraiva
Submarino
Estante Virtual (novos e usados)
Amazon (em francês)

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saiba-mais

- As Relações Perigosas mantém o título de uma das obras mais adaptadas para o cinema. Até hoje já foram 11 versões, sendo a mais famosa de 1988 (e, a propósito, é sensacional). O filme, batizado em português de Ligações Perigosas, é dirigido por Stephen Fears e traz no elenco nomes de peso como Glenn Close (como a marquesa de Marteuil), John Malkovich (visconde de Valmont), Michele Pfeiffer, Keanu Reeves e Uma Thurman (Cécile de Volanges). Mais informações você encontra no IMDB, e o trailer pode ser visto aqui.

- Uma outra versão do livro é o filme Segundas Intenções, de 1999. Nele, a trama de As Relações Perigosas é transposta para a Nova York dos anos 90, mantendo todo o clima de libertinagem do livro de Choderlos. Obviamente, nessa adaptação os títulos de nobreza do livro foram retirados, e os personagens ganharam primeiros nomes. Fazem parte do elenco principal Sarah Michelle Geller, Ryan Phillippe e Resse Whiterspoon. Leia mais no IMDB.

- Choderlos de Laclos é o típico autor-de-uma-obra-só. Além de As Relações Perigosas, ele escreveu poucos poemas e um libreto de ópera cômico – que foi um fracasso. Mesmo assim, As Relações Perigosas é tão imponente que foi o suficiente para manter o nome do autor em destaque por décadas. Não à toa, As Relações já foi discutido por nomes de peso como Baudelaire, Deleuze e Stendhal.

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Um exemplar do livro “As Relações Perigosas” foi enviado como cortesia para a Literar  pela Globo Livros / Biblioteca Azul.

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