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Este artigo foi escrito no dia 27 jun 2016, e pertence à categoria Resenhas.

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Resenha: Depois a louca sou eu. [Tati Bernardi]

De imediato!

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Antes de qualquer coisa: eu sou ansioso! Meu terapeuta fala que eu não mostro sinais de ansiedade na minha fala nem no meu comportamento! Acho que eu finjo bem. Ele só me vê uma vez por semana e eu sempre estou fazendo piada das minhas confusões…

Outra coisinha: minhas resenhas se transformaram em relatos pessoais. Às vezes acho que eu deveria criar um espaço exclusivo para isso. Trato disso na terapia! Ele me apoia, mas eu tenho medo… Enquanto meus companheiros permitem, abuso!

Enfim…

Eu conhecia Tati Bernardi por ser roteirista de televisão e cinema e por ter composto músicas com a Sandy! Ponto pra ela! Um dia, a assisti falando em um programa sobre o novo livro, Depois a louca sou eu, e que ele falava sobre a Síndrome do Pânico. Me interessou de imediato. Pelo menos três dos meus melhores amigos têm Pânico. É um assunto muito presente para mim e eu faço parte dessa geração de ansiosos, que tem uma caixinha (imensa) de remédios no fundo do guarda roupa e que pautam a vida com listas, horários, otimização do tempo e insônia. Já tive que tomar ansiolítico em períodos extremos da minha vida…

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Na semana em que comprei o livro, estive, em um bar, com duas pessoas que passam por esse probleminha… Comecei a ler no dia seguinte, organizando minha agenda para ter uma brecha maior para literatura. Antes da metade do livro eu já sabia que eu deveria discutir com vigor essa minha ansiedade na terapia. O meu medo não é ter crises agora e sim no futuro. Se eu reconheço um problema desde já, melhor tratar. Fiquei ansioso para chegar quarta-feira logo, dia da terapia. Tati descreve situações que são bem comuns na minha vida, claro que em escalas diferentes. Um fator que conta muito: a escrita é uma delícia de se ler.

Sabia que ela era famosa pelo tom confessional e cômico na escrita, mas nos primeiros capítulos eu conheci uma menina séria e direta, que sentiu a falta de compreensão das pessoas com a doença e em quais situações o Pânico já estava ali, ainda pequena, mas logo em seguida já nos é apresentada a garota divertida e que faz graça da vida. Fiquei com uma certeza: eu quero ser amigo da Tati Bernardi.

Um ponto que eu achei interessantíssimo, que me foi alertado por uma colega do serviço, formada em psicologia, é que o formato de crônicas é uma ótima opção para os dias de hoje. A forma descontinua com que a leitura pode ser feita facilita aos leitores que cada dia têm menos tempo para se dedicar às páginas literárias. Eu sempre penso que deveria comprar audiobooks, porque passo mais tempo em trânsito do que qualquer coisa, mas sempre penso no Cid Moreira e desanimo.

Na capa há umas bolinhas com um X no meio, em alto relevo, meio áspero, que eu achei que fossem parafusos e fiquei pensando que deveria ter um a menos para fazer jus a frase sinônima pra gente doidinha, “um parafuso a menos”. Depois achei certíssimo ter todos os parafusos, porque todo mundo é normal da forma que é… Só quando vi na entrevista que a Tati deu para o Jô Soares que aprendi que na verdade são pílulas.

Achei tão corajoso como ela, que há nove anos está dentro da Rede Globo, cita situações e nomes que envolvem uma empresa de tanto prestígio e que tem certa fama de censuradora. Tati é escrachada e isso é ótimo! Ela não tem vergonha do auto boicote, dos dentões, de falar que transou no primeiro encontro, que teve diarreia em uma viagem, de revelar situações estranhas no meio global e por ser uma autora famosa, de ter sido carente em algumas relações, mas acho que tratar com leveza algo que a limita é maravilhoso. Necessário para tanta gente.

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Quando eu fiquei sabendo do livro, logo falei com uma amiga que tem Pânico e ela ficou louca querendo comprar. Depois que comecei a ler, tive medo de que as crises de Tati pudessem a influenciar a desenvolver surtos em ocasiões em que não aconteceriam nada. Temi que ela ficasse impressionada com as histórias da autora… Mas acho que o principal objetivo do livro é mostrar que as pessoas ansiosas não estão sozinhas e que cada um tem uma forma de expressar e lidar com a condição.

Mudando um pouco de assunto, numa sexta à noite furtaram alguns objetos do meu carro. Abriram o porta-malas e levaram as coisas que estavam lá! Quando digo “alguns objetos”, estou tentando parecer calmo, mas roubaram muita coisa importante. Todos meus documentos; cartões; minha mochila com roupa de academia; meu tênis de ginástica preferido; uma mochila linda e velha que eu comprei em uma viagem; a carteira com zíper, linda, que eu amava; minha nécessaire de couro marrom; um guarda chuva verde, lindo, que eu comprei fora; minha agenda, linda, que eu usava às vezes de diário; minha marmita com um resto de comida do almoço, que eu não dei conta de comer; minha garrafa rosa de água gasosa; e o meu livro 1ª edição da Tati Bernardi.

Não dormi. Queria resolver tudo que eu poderia resolver. Já tinha bloqueado todos os cartões, chorado a madrugada inteira (aconteceram outras coisas na mesma noite. É! Comigo nada é fácil!) e eu sabia que o menor problema para se resolver era ter meu livro de volta, mas era o que eu mais queria. Eu precisava daquele livro! No sábado cedo fui a uma livraria (depois de horas em uma delegacia para fazer o boletim de ocorrência) e o livro tinha esgotado. Não tive mais ânimo para procurar outra loja e fui encontrar um casal de amigos, que me avisaram que a minha cara estava péssima! Acabei comprando um Truman Capote, mas não teve o mesmo efeito. Julguem-me! Quatro gotinhas de Rivotril. Dormi quase nove horas direto naquela noite. Amém!

Domingo, esperei ansiosamente (claro!) para dar 14 horas no relógio, para que os shoppings abrissem e eu fosse atrás de mais um exemplar do meu livro! Achei! Segunda reimpressão. Saco! Quase R$10 mais caro, mas eu precisava daquilo! Faltavam poucas páginas para terminar! Tive uns desvios no caminho e cheguei em casa tarde, mas feliz com meu livrinho. Não passei fio dental! “Listerine vai cuidar das sujeirinhas entre os dentes essa noite”! Eu tinha que ler logo!

Eu não ia conseguir dormir enquanto não recuperasse o tempo que eu perdi longe dele! Fiquei com medo de terminar. Deixei o último capítulo sem ler. Temi solidão! Nas últimas páginas, há crônicas que relatam menos a doença e falam da autora como uma pessoa “comum”, mulher, sem relação com a doença. A pessoa séria e direta reapareceu. Fiquei aliviado de ter corrido atrás de outro exemplar logo. Valeu a grana, as horas e a ansiedade despendidas.

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Me senti inspirado pelo bom humor, pela coragem de ser tão direta e honesta. Tive que escrever.

Agora, enquanto escrevo esse texto, no mesmo domingo, meia noite e cinquenta e oito minutos, exatamente, penso que em quatro horas eu tenho que estar acordado para ir trabalhar, explicar pro meu chefe que eu tive um final de semana bosta e que vou estender um pouquinho meu horário de almoço, porque tenho que ir ao banco, pedir novos cartões, olhar como acionar o seguro, pagar pelos novos documentos – quase R$300!!!!!! – e ainda comer um chocolate ao leite para me acalmar. Talvez depois eu devesse ir para academia fazer uma esteira e eliminar o chocolate. Merda! Roubaram meu tênis preferido pra corrida! Cabeça está a mil. Todos os pensamentos se misturam… Talvez eu devesse levantar e passar o fio dental…

Pestanejei duas vezes! O olho coçou! Bom sinal!  Não conseguir dormir me deixa ansioso. Insônia me deixa criativo. Pensar me tira o sono, assim como começar algo e não terminar ou não ter como resolver algo de imediato… Uma bola de neve! Que bom que inventaram as orações e descobriram a importância da respiração para acalmar. Sem Rivotril essa noite!

Reparei que eu tive que me controlar para não usar “logo” no texto várias vezes. Substituí para “imediato”. Talvez use essas palavras no título. Com um ponto de exclamação. Nunca usei tanta exclamação, nem em cartão de aniversário! Talvez eu devesse, no início, avisar ao leitor para ler sem respirar, com pouca pontuação. Foi assim que eu escrevi. Talvez eu devesse dar uma revisada melhor. Não tenho tempo. Ansiedade! Sabe como é…

Vai ficar tudo bem! Consegui antecipar minha sessão de terapia para amanhã.

PS.: Li o último capítulo na sala de espera do terapeuta… Já tô com saudade!

 

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