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Este artigo foi escrito no dia 30 abr 2015, e pertence à categoria Resenhas.

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Resenha: Muito prazer, Roberta Close [Lúcia Rito]

Além da identidade

Em tempos em que se discute tanto sobre transgêneros, chegou a minhas mãos uma biografia da mulher/homem mais famosa do Brasil, Roberta Close. O livro escrito em 1998, pela jornalista Lucia Rito, revela a infância e juventude da pessoa que colocou a palavra “hermafrodita” no vocabulário do povo brasileiro.

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Logo no primeiro capítulo, Close conta uma situação recorrente em sua vida: a dificuldade de provar que aquele mulherão era a mesma dos documentos com nome masculino.

Nascido, pelo menos no registro, Luiz Roberto Gambine Moreira, caçula de três meninos, Roberta nunca se viu como um rapaz. No livro, afirma que nasceu sem testículos, só tinha um ‘pintinho’, que não desenvolveu, ficou pequeno até ser cortado. O médico que fez o parto garantia que a falta do saco escrotal se resolveria com o tempo.

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As bolas nunca aparecerem, ao contrário das mamas, que aos 12 anos começaram a despontar. Nessa época, Roberta matava aula e ia para Copacabana com um biquíni que escondia dos pais. Dois anos mais tarde, começou a tomar hormônios para desenvolver os seios. Seu pai nunca aceitou a androgenia de Luiz Roberto e chegou a raspar seu cabelo. A situação se agravava, os vizinhos comentavam e Robertinho se mudou para a casa da avó.

A inquietude típica de uma sagitariana fez com que Roberta buscasse seu lugar. Começou a trabalhar como modelo e vedete. Sua beleza é inquestionável (pelo menos antes dos botox e preenchimentos). Chegou a desfilar para Jean-Paul Gaultier, ao lado de Naomi Campbell, Cindy Crawford e Linda Evangelista, atuar em filme, participar de todos os grandes programas de tevê, estampar todas as capas de revistas (até mesmo a Playboy, antes e depois da cirurgia – mas sem mostrar o sexo, na primeira edição), ser musa para artistas e músicos e desejada por muita gente. A fama ultrapassou nosso país e chegou à Europa e Estados Unidos, estampando jornais internacionais, que noticiavam que a modelo mais bonita do mundo era um homem.

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Parte desse probleminha foi resolvida quando Roberta tinha 25 anos e fez a dolorosa cirurgia para remover o pênis. Só então a situação de Roberta foi aceita como hermafroditismo. Até aí, ela era reconhecida como um travesti.

Lúcia Rito afirma, em determinado momento da obra, que sofreu preconceito de colegas de profissão e amigos por estar escrevendo um relato sobre Close. Como uma jornalista bem resolvida e sucedida, mãe de família, poderia se envolver com alguém do gênero?

A minha maior curiosidade em ler uma obra que se discute um assunto tão atual era tentar esclarecer a diferença entre os grupos de transgeneridade que existem. Apesar de trazer um glossário prático, o livro fica um pouco ultrapassado, já que hoje em dia reconhecemos outras classificações.

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O exemplar tem uma leitura tão fácil, em uma composição espaçada e lotado de fotos, que em um par de horas é capaz de terminar de ler. Claro, como a principal fonte é o próprio objeto pesquisado, sem ouvir ninguém, além de um ou outro especialista, deve-se desconfiar de algumas coisas que são ditas. Em alguns momentos, as informações se contradizem. Durante todo o livro, afirma-se que Roberta começou a tomar hormônios aos 14, mas há uma parte que garante que foi aos 12 anos.

A situação constrangedora que Close relata no princípio do livro já não acontece mais. Sete anos depois da publicação da obra, em 2005, Luiza Gambine Moreira, teve aprovado o direito legal de usar seu nome social.

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