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Este artigo foi escrito no dia 31 mar 2016, e pertence à categoria Resenhas.

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RESENHA: O AMOR NOS TEMPOS DO CÓLERA [GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ]

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Colores, sabores, olores y amores

Uma não-resenha sobre um livro e uma cidade para renascer ou o relato de um viajante bailarino

 

¿Yo quién soy?

¿Yo quién soy?

Quando o filme “O amor nos tempos do cólera” (2007) foi lançado, eu já conhecia Gabriel García Márquez – autor do livro que inspirou a película –, mas só tinha lido “Memórias de minhas putas tristes” e começado “Crônica de uma morte anunciada”, que tive que parar por conta de obrigações com a faculdade. Não é possível ser latino, gostar de literatura e não conhecer e admirar Gabo – apelidinho dele.

Eu assisti à obra acompanhado de uma menina que eu tinha começado a namorar recentemente. Tínhamos poucos meses de relacionamento e era tudo ótimo. Muitos gostos parecidos e muita cumplicidade. Entendíamos-nos tão bem que nunca perdemos um jogo de mímica, se estávamos no mesmo time. Quando o filme acabou e a voz da Shakira se misturou nas letrinhas dos créditos, olhei para o lado e a garota estava chorando. Perguntei o motivo e ela disse que sabia que nunca teria um amor do mesmo jeito que o personagem de Márquez, Florentino Ariza, tão forte, que superou o tempo e a distância.

Quando encontralo preste atención. Es común que tenga arena en el corazón!/ Dos tempos em que a meia no cinema era R$5! s2

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“O amor nos tempos do cólera” conta a história de três personagens principais: Florentino Ariza, Fermina Daza e Juvenal Urbino. A grosso modo, o enredo se desenvolve a partir das recordações do casal Fermina e Juvenal, já idosos. São mais de 50 anos de lembranças… Em ordem cronológica, tudo começa quando Florentino, a serviço dos correios, vai entregar uma carta na casa de Lorenzo Daza e conhece a filha Fermina. O jovem se encanta com a moça e a partir daí começa a cortejá-la com cartas imensas, super românticas e encontros surpresas. Os dois estão apaixonados, porém o pai dela não aceita que ela namore um mensageiro. Então a menina é mandada para a casa de uma prima, distante e ele ainda ameaça Florentino. Quando a garota volta, ao reencontrá-lo, percebe que o que havia entre eles era uma ilusão e, sem explicações, diz que não quer mais nada. Florentino sofre como um homem apaixonado deve sofrer, mas nunca esquece aquele sentimento.

Sob suspeita de cólera, Fermina recebe a visita do Dr. Juvenal Urbino, que se apaixona pela beleza da moça. Mesmo que a princípio ela não demonstre interesse, eles acabam se casando e tendo vários filhos. Florentino permanece esperando o dia em que ficará com sua amada. Quando jovem, ele havia prometido se manter fiel (leia-se virgem) ao amor de Fermina, porém, por um “acidente”, ele descobre os prazeres da carne, mas no fundo, ele sempre foi puro para aquela relação.

Mesmo com anos de casada, Fermina não supera essa história. A dúvida de como teria sido a atormenta, às vezes. E é claro que Florentino se apaixona por outras mulheres e sofre quando elas partem, mesmo nunca esquecendo Fermina – e comendo metade da população feminina da Colômbia. Acho que, quando o sentimento é muito intenso, a gente nunca supera por completo o que passou.

Não quero entrar mais na história do livro para não tirar o encanto, mas garanto que tudo é mais complexo e belo do que transmito aqui. Aliás, confesso: ler Gabriel García Márquez não é fácil. É denso! É o tipo de leitura que talvez não dê para pescar tudo de primeira e não dá para você sair imune, sem se concentrar! Mas a minha dica é se jogar! As descrições e o detalhamento tornam tudo mais crível e transbordam sentimentos. Podemos imaginar cheiros, texturas, feições, cores e até a temperatura – que sem dúvidas vai ser escaldante. Tudo de uma forma poética e apaixonada.

O meu relacionamento com a garota do cinema não foi eterno, mas durou mais de oito anos. Tempo suficiente para se reinventar, se recriar, ser próprio, amar, ter raiva e tanta coisa boa que não cabe em algumas linhas. Sofri muito quando acabou, como um homem apaixonado deve sofrer. Senti muito não ter sido o amor-eterno que ela esperou um dia encontrar.

Ascendente em amor, lua em mar!

Em uma segunda-feira, no dia que começou meu inferno astral, decidi que deveria tomar algumas decisões importantes – algumas depois de conversar com meu psicólogo, claro! Entre as várias, a principal era fazer uma viagem na Semana Santa, que seria a maior folga que eu teria no ano, completamente sozinho. Sempre adorei viajar, mas nunca tinha ido sem companhia. Achei que era necessário. Eu precisava me entender melhor. Interiorizar em uma hora de muitas mudanças. Em alguns momentos, mais importante do que se cercar de pessoas maravilhosas é bom saber o quão maravilhoso você pode ser sozinho!

Queria colocar uma foto minha no post e eu adoro essa!

Queria colocar uma foto minha no post e eu adoro essa!

Decidi que iria para Cartagena das Índias, na Colômbia (o mais próximo que eu ia conseguir chegar da Índia mesmo – que sonho conhecer desde que fiquei fã de Alanis Morissette, no princípio da minha adolescência…). Na verdade, só depois de escolhido o destino, me dei conta que a cidade é palco para o romance de Gabo. Ao invés de comprar um guia de viagem, comprei um exemplar de “O amor nos tempos do cólera” e algumas semanas depois embarquei para o lugar que oferece um cenário incrível para aquela história de amor.

O procurei em algumas livrarias e não encontrei em lugar nenhum, até achá-lo em um sebo da zona sul de Belo Horizonte. A ideia de o livro ser usado me encantou mais ainda. É um exemplar da primeira edição publicada no Brasil, há mais de 30 anos, pela editora Record. Páginas amarelas, com a clássica capa azul e a pintura de um cúpido. Mas o que eu mais quis naquele livro usado era uma dedicatória, encontrar as palavras de quem o comprou, oferecendo para outra pessoa. Talvez fossem dizeres de amor ou talvez tivesse sido um presente de amigo-oculto, Natal… Sei lá! Detesto livros regalados sem dedicatórias. Elas mostram a intenção da pessoa e eternizam o carinho. Mas esse exemplar deve ter sido algo mais próprio ou obrigação de leitura em alguma aula. Nada! Não há dedicatórias. O livro, apesar de velho, é inteiramente meu. Só guardou o desgaste do tempo nas prateleiras e a ação química da lignina.

Em um banco do Parque Bolívar, onde Gabo tentou passar a primeira noite, sem ter para onde ir, mas um policial o expulsou.

Em um banco do Parque Bolívar, onde Gabo tentou passar a primeira noite, sem ter para onde ir, mas um policial o expulsou

Aliás, injustiça minha! O livro também manteve o triângulo entre Florentino, Fermina e Urbino, as ruas, becos, as fachadas das casas, as cores, o mar e as pessoas. Como eu disse antes, a minha breve sinopse da história não é nem de longe uma boa forma de julgar a obra. Márquez é intenso, cria os personagens com características tão próprias, que poderíamos dar-lhes mapas astrais. E não só as figuras principais são tão profundas. Os coadjuvantes também são descritos com riqueza de detalhes e recebem valor. Até mesmo o papagaio de Urbino nos é apresentado com particularidades.

Admito, procurei Fermina em algumas janelonas abertas nas sacadas coloniais das casas; imaginei Urbino sentado, com um cachimbo, nos jardins atrás das grades; e vi, perfeitamente, Florentino, olhando a amada entre as colunas do Portal de los dulces, que Gabo chama de Portal de los Escribanos, no livro. Não estavam lá e nem deveriam estar. Cartagena me pareceu muito movimentada para se sofrer de amor. A preocupação agora não é mais a cólera e sim a zika.

 

Banca de livros usados na Torre del Reloj

Banca de livros usados na Torre del Reloj


Pés com bolhas e sandálias gastas

Há algum tempo, vi uma entrevista da Shakira em que ela dizia que o povo do seu país era fantástico, porque mesmo sofrendo com a pobreza, ele nunca tirava o sorriso do rosto. Sempre associei essa característica ao pessoal brasileiro. E lá, de fato, não é diferente. Li em algum lugar, pesquisando antes de viajar, que Cartagena é conhecida como “Cidade bailarina” e tudo fez muito sentido na minha primeira volta pelas ruelas. Não existiu um quarteirão em que não houve um ritmo latino saindo de algum lugar e um grupo cantando e bailando como se fosse domingo. A melhor parte de ser um forasteiro solitário é se permitir a arriscar o passo de qualquer dança sem a vergonha de errar.

Gabriel García Márquez descreveu a sua chegada àquela cidade, assim que passou o portal da Torre del Reloj, principal entrada para a Ciudad Amurallada, como um “nascer de novo”. Cartagena o encantou tanto que, mesmo nunca tendo sido citada diretamente nos livros, ele dizia que em todas as suas obras havia “resquícios” de lá, fossem nos personagens, nas situações ou locais. Não há como não se apaixonar. Cartagena te deixa minúsculo entre as ruas estreitas e as casas de dois andares. Tudo parece maior. Vai além!

Gabo nasceu em 1927, em Aracataca, Colômbia. Mudou-se aos 21 anos para Cartagena das Índias, onde começou a trabalhar como jornalista no periódico El Universal. Há algumas empresas que fazem city-tours, apresentando os lugares através das publicações do colombiano. A cidade do caribe sul americano foi só o início do despontamento de Marquéz pela escrita. A importância dele na literatura foi reconhecida em 1982, quando ganhou o prêmio Nobel pelo conjunto da obra, que inclui o sucesso internacional “Cem anos de solidão”. Faleceu em 2014, na Cidade do México, vítima de uma pneumonia, depois de ter passado anos lutando contra um câncer que atingiu os pulmões, fígado e gânglios. Lembro que naquele dia de abril, eu e a menina – que a essa altura já tinha deixado de ser só do cinema e tinha se tornado companheira de muita coisa – ficamos em choque. Ela mais uma vez chorou. Agora, pela passagem de García Márquez.

Universidad de Cartagena e Jornal El Universal

Universidad de Cartagena e Jornal El Universal

O que eu vivi com a menina-do-cinema foi amor. Daqueles intensos, que se acham capaz de superar qualquer adversidade, que era mais do que juras, eram certezas. Era pleno, absoluto, redondo… Mas não suportou o tempo, não esperou a calma dos corações maduros e não aceitou se curar juntos. A última vez que eu a vi chorando foi no nosso último encontro. Não foi pela despedida, não foi por dor, não foi de raiva; foi pela falta de intimidade que o tempo continua nos proporcionando; pela distancia de alguém que antes era tão conhecido e hoje é uma lembrança; por sermos estranhos um para o outro, agora.

Eu sou Florentino, Fermina, Urbino, Transito, Hildebranda, Nazareth, America e várias outras pessoas. Sou eu mesmo. E amei. Amei com paixão, com desdém, com entrega, por entrega. Reconheci-me mais do que esperava nos personagens. Tão próximos e distantes.

Na minha primeira visita ao Parque Centenário, em frente à Torre do Relógio, passei perto de uns sebos e quis presentear alguma prateleira com uma obra de Gabo. Claro, lá estava uma edição de “El amor en los tiempos del cólera”, que mesmo usada, também não vinha com rabiscos. Onde estão os homens de cabeça fraca que devem fazer anotações nos cantinhos? Onde estão as pessoas que garantem serem os donos, assinando seus nomes nas contracapas? Onde estão os “eu te amos” que são distribuídos inocentes por aí? Enfim, comprei! A história, ali, se repete, só que em castelhano, mas agora abrilhanta a coleção de livros, na minha estante.

Bancas de sebos no Parque Centenário

Bancas de sebos no Parque Centenário

Eu já tinha começado a escrever esse texto antes de ir. Adiantei o que foi possível, mas o terminei de verdade dentro do meu vôo de conexão para Bogotá. Sempre faço algumas anotações sobre minhas percepções da cidade e do que senti nos lugares em um caderninho (e dessa vez eu tinha um super especial, que ganhei de aniversário dos meus queridos Libretto). A última nota que eu tomei foi no aeroporto de Cartagena, esperando meu embarque, sobre tudo que aquela viagem tinha significado para mim: elegi o melhor momento; o lugar que mais gostei; as sensações; os gostos; o mojito menos doce; e o imenso pesar que estava causando a minha partida. “Quero chegar logo, mas quero ainda mais ficar. (…) Não houve momentos de solidão. Me fiz companhia. Foi tão bom e tan lleno que estoy cansado. (…) Volto, infelizmente, mas volto outro. Mais completo, sem dúvidas; mais dono de mim. Sinto que deixo aqui, mais do que um mar azul, pessoas simpáticas, uma cidade encantadora, uma lluna llena linda e as arepas de queijo… Deixo um pouquinho do meu amor e da liberdade que quero sempre sentir. Cartagena me permitiu isso. Ser só e ser muito. Quero mais e sempre.(…) Gracias Cartagena de Índias!”, finalizei no melhor estilo Thank U India!

Foto 007

Quando decidi viajar sozinho para Cartagena, fui em busca de nascer de novo, como Márquez se sentiu ao adentrar a Plaza de la Paz. O que a princípio eu interpretei como uma fuga, depois entendi que era uma caça do autoconhecimento. Fui correr atrás de mim e foi simplesmente incrível perceber o que eu posso ser longe de tudo que me é normal. Não há passos errados na salsa do forasteiro-bailarino solitário. E quem disse que é impossível ser feliz sozinho? Deixei-me de ser um estranho! Na verdade, me certifiquei do que já sabia… Foi a viagem com a menor bagagem que eu já fiz e a que voltou mais cheia. E eu não estou falando literalmente. Cartagena foi uma busca por amor, talvez o maior que deva existir: o próprio! Só com ele você consegue retribuir o sentimento que recebe dos outros. E ele estava aqui o tempo inteiro!

“A vida, mais que a morte, a que não tem limites”, conclui Márquez através de Ariza. Não importa que o tempo passe e que as pessoas mudem. O tempo passa e as pessoas mudam. Os amores findam, as viagens têm prazos, os sonhos não envelhecem, mas despertam. A única coisa definitiva é a morte. E estamos vivos. Não estamos?

saiba-mais
Em 2007, o diretor inglês Mike Newell levou às telonas a obra de García Márquez, depois de muita insistência. O filme, que foi rodado em Cartagena, tem trilha sonora original assinada por Shakira, a convite do próprio autor. Além de tudo, é o primeiro filme de língua inglesa da linda Fernanda Montenegro.

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