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Este artigo foi escrito no dia 09 jul 2013, e pertence à categoria Resenhas.

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Resenha: Santa Evita [Tomás Eloy Martínez]

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A maratona póstuma de um mito

Eu tinha somente sete anos de idade quando o filme Evita (1996), dirigido por Alan Parker, foi lançado. Lembro de vários comentários e matérias que falaram sobre a vida de Eva Perón, a atuação de Madonna, figurinos e também o incansável vídeo-clipe de Don’t cry for me Argentina, que bombava na MTV (saudades!), na época. Só assisti à película cerca de três anos depois, já em um VHS alugado, mas desde então me apaixonei pela história da mulher que conquistou uma nação. Sempre fui fascinado por figuras femininas que conseguem mobilizar milhares de pessoas – Não é a toa que meu desenho preferido da Disney é Mulan (1998).

No final de 2012, ganhei o livro Santa Evita (1996), de Tomás Eloy Martínez. Já havia lido muitas coisas sobre Eva Perón antes, porém a obra do jornalista argentino me esclareceu e acrescentou uma nova visão sobre a história.

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Um dos principais aspectos da publicação é ser um romance! Sim, um romance! Os personagens são reais, existiram mesmo, mas não sabemos até que ponto os casos contados são verídicos. O autor se isenta de qualquer parcialidade o tempo inteiro, aliás, afirma que tudo é imaginação. A dúvida, o híbrido entre a autenticidade e a ficção, deixa o livro mais interessante.

Claro que há momentos em que o autor traz legitimidade à obra, como em transcrições de páginas de cadernos de Eva, anotações, laudos médicos, reportagens da época e principalmente relato de pessoas que estiveram perto dela em algum momento de suas vidas ou que pelo menos tentaram se aproximar.

A protagonista é sem dúvidas Eva Perón, só que morta! Depois de ter agonizado, quase que literalmente, em praça pública, com um câncer, Evita faleceu aos 33 anos e, então, começa uma segunda parte da novela! O corpo da líder espiritual da nação argentina não foi enterrado (ou afins) logo de cara. O Exército tinha medo de que o local do sepultamento se tornasse um lugar de peregrinações, além de que não faziam questão nenhuma de dar à Eva um funeral digno.

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Evita é vista como uma “Robin Hood dos anos 1940”, o que, fatalmente, faz com que ela seja odiada quase na mesma proporção que é amada e louvada. Mesmo antes de ser Primeira-Dama do país, já fazia trabalhos de caridade. O problema maior, acredito, é que ela ajudava demais aos descamisados. Casas, dinheiro, camas, roupas, remédios, visitas ao mar… Era um anjo que trazia a felicidade aos cabecitas negras, expressão portenha que nomeia a população pobre.

Por outro lado, uma pátria cristã e conservadora não poderia aceitar que uma mulherzinha bastarda, vinda do subúrbio e que galgou na vida de uma forma, digamos, duvidosa, se tornasse uma santa e ao mesmo tempo interferisse na economia e na conduta social no país.

Assim, depois de morta, Evita “viveu” uma louca aventura. Seu corpo ficou três anos em um trabalho de embalsamento; em seguida, sequestrado pelo Exército, passou semanas perambulando pelas ruas de Buenos Aires; ainda, foi feita de boneca para uma criança, atrás de um telão de cinema; foi a amante de um capitão apaixonado; até fazer sua última viagem à Europa. Durante todo esse tempo, a “Pessoa”, como era chamada pelos oficiais que não gostavam de citar seu nome, foi tida como o motivo de acidentes, mortes e demências. Uma assombração, propriamente dita. Afirmam que todos aqueles que tiveram contato com o corpo sofreram de alguma forma. Só depois de um pouco menos de duas décadas é que o cadáver de Eva Perón volta para a Argentina! Loira e ilesa!

Há duas partes que me impressionaram muito no livro. Uma delas são os relatos que o autor faz de pessoas que sacrificaram suas vidas para que Eva tivesse a saúde intacta novamente. Como forma de promessas, pessoas abnegavam das próprias vidas, faziam greves de fome, jornadas gigantes de trabalho, compromissos divinos… Aliás, até hoje em dia há quem tente provar os milagres feitos pela Santa Evita!

Outro fato comovente, que aparece em diferentes momentos da obra, é a forma com que Eva se dispunha a trabalhar. Ela chegava a seu escritório ainda de madrugada; passava dias sem dormir para atender a tantos pedidos; viajava por várias cidades no mesmo dia; fazia pronunciamentos; etc… Incansável! Sempre bem maquiada, sorrindo e em pé! Até que seu corpo não agüentou mais…

Inegavelmente, Eva foi uma figura carismática, amada e odiada com tanta força que mesmo depois de morta continuou provocando polêmicas.

Santa Evita é um romance com personagens reais, o que torna tudo tão crível, que cabe ao leitor filtrar o que se deve acreditar. Apesar de ter uma escrita fácil de entender, a obra te cobra atenção, já que traz muitos dados históricos, personagens novos a todo o tempo e, por vezes, uma ordem cronológica não muito linear.

De uma forma geral, o romance oferece muitos fatos curiosos e conta histórias interessantes, desde a “Maria Eva Duarte”, que não se sabe ao certo o local do nascimento, até após o “Aqui jaz Evita”! O livro é capaz de agradar adoradores de biografias, curiosos por História e aqueles que querem uma narrativa casual e inteligente.

Eva Perón sempre foi cercada pela dualidade: o bem e o mal; o que é verdade e o que é mentira; o amor e o ódio. Mas se pensarmos bem, todos nós estamos rodeados por mais de dois lados: Deus e o Diabo; o belo e o feio; o começo e o fim; a vida e a morte; o certo e o errado. Nós é que escolhemos o que vamos acreditar.

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literar-evita-capaSANTA EVITA

Autor: Tomás Eloy Martínez
Título original: Santa Evita
1996, 344 páginas, Cia das Letras

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