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Testamento para Hilda

A coluna “Escrita em Progresso” é feita pelo escritor, dramaturgo e encenador Juarez Guimarães Dias. Aqui você acompanha de perto a criação do romance “A Casa da Senhora HH”, que revela a história da Casa de Hilda Hilst, seus espaços e habitantes, entre personagens e objetos, mitos e narrativas, no período em que foi residência oficial da autora. A obra recebeu o Prêmio Biblioteca Nacional/ Funarte de Criação Literária, edição 2012.

23 de janeiro de 2014. Aqui na Casa do Sol, encaro de empreitada a leitura integral e estudo de “Testamento para El Greco”, do escritor e filósofo grego Nikos Kazantzakis (1883-1957). O livro, traduzido por Clarice Lispector e hoje raríssimo de ser encontrado (até em sebos virtuais), impeliu Hilda Hilst (1930-2004) a deixar sua vida confortável, de prazeres e amantes em São Paulo e construir sua Casa do Sol nas terras da Fazenda São José, de propriedade da sua mãe que, por sua vez, ganhara esses 20 alqueires de um amante (como se dizia na época, pois já era divorciada). Kazantzakis, que ficou conhecido por obras como “A Última tentação de Cristo” e “Zorba, o Grego”, ao fim da vida decidiu rever sua trajetória e produziu esse romance autobiográfico que, segundo sua esposa Helena, não ganhou uma segunda revisão como seu autor havia planejado. Kazantzakis terminou a obra um ano antes de falecer, aos 74 anos (idade que Hilda faria dois meses depois de morrer).

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Para a nossa Senhora H, que na época da leitura contava com 30 e poucos anos, o livro foi como um “chamamento”, pois é notável o quanto ela se identificou com Kazantzakis, reconhecendo seu rosto no rosto dele, na pulsão de vida pela escrita e nas perguntas que os tanto angustiavam, para as quais buscavam respostas: o sentido da vida, o porquê da morte e a existência de Deus. Para isso era preciso Tempo para ler, pensar e escrever. Das passagens do romance que Hilda mais gostava de citar era aquela em que Kazantzakis, inspirado por Bergson, apelava às pessoas que encontrava pelas ruas: “Esmolas, irmãos! Quinze minutos de cada uma das suas vidas. Oh, por pouco tempo, o bastante para terminar meu trabalho. Depois, que venha Caronte [o barqueiro grego da Morte].”. Então, um dia ela revelou: “Pensei comigo mesma: ‘Vou mudar de vida’. Eu tinha criado para mim uma imagem que não era real. Agora é a verdade. Não foi, portanto, uma fuga. Foi só uma volta à minha verdade, à minha realidade.”.

Profundamente místicos, Hilda e Kazantzakis tiveram formação educacional religiosa (ela Católica Apostólica Romana, ele Cristão Ortodoxo Grego), liam as lendas de santos, faziam perguntas a seus mestres que a maioria das pessoas não costuma fazer, por não terem hábito de questionar as “verdades” da ciência e das religiões. Mais tarde, cada um em seu tempo, cursaram Direito (ela no Largo São Francisco em São Paulo, ele em Atenas). Entretanto, quando sentiram que tinham uma busca, um Projeto de vida, trilharam percursos distintos: Kazantzakis percorreu o mundo e entrou em contato com diversas realidades como monastérios católicos, mulçumanos, ortodoxos, cristãos, budistas, com quem compartilhava suas dúvidas e relativizava as respostas que lhe eram dadas. De caráter decisivamente monástico, o escritor grego preferia o isolamento e a solidão, mas foi fortemente marcado ao se confrontar in loco com os resultados da Revolução Russa, Revolução Chinesa, a Guerra dos Bálcãs e também a Segunda Guerra Mundial. Escrevia, traduzia, dava conferências, envolvia-se em causas humanitárias, mas sabia que suas principais armas para lutar eram a caneta e o papel. Somente depois de toda a jornada, que levou décadas de sua existência, encontrou a harmonia que tanto buscava, numa casa isolada à beira do Mar Egeu onde passou um tempo sozinho.

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Ao deixar esse legado em forma de romance, Kazantzakis possibilitou a Hilda ir direto ao ponto: pediu à mãe 3 alqueires de terra para construir a Casa do Sol, onde pudesse viver para se dedicar ao trabalho, a Literatura. Queria respostas para as mesmas perguntas do escritor grego, mas decidiu buscá-las no contato com pensadores, pesquisadores e autores, o que a levou a erguer uma biblioteca de obras raras. Contudo, não tinha a perspectiva do isolamento total, ao contrário: a Senhora H gostava de estar com as pessoas, interessava-se particularmente por todas que vinham à Casa e convidava os amigos a morarem  consigo e seu companheiro, o escultor Dante Casarini. Ela queria estar em contato com o Outro, trocar, dividir. O Projeto da Casa, que ela mesma concebeu, tem a iluminação do “Testamento”: estilo conventual colonial, com um pátio interno a céu aberto e envolta por um jardim exótico onde mora uma Figueira mágica centenária (símbolo da sabedoria), o silêncio propício para a concentração, salvo pelos cães e pássaros que aqui vivem, um espaço para cada um de seus residentes viverem seu trabalho criativo e intelectual, além dos comuns de convivência intensa em comunidade. Sim, um Testamento pode mudar a vida de alguém. Um livro também.

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Juarez Guimarães Dias é mineiro, radicado em Belo Horizonte, e nasceu em 14 de abril de 1978 em Conselheiro Lafaiete. É Doutor em Artes Cênicas (Unirio), Mestre em Literatura (PUC-Minas) e Bacharel em Comunicação Social (Uni-BH). É escritor, dramaturgo e encenador, designer gráfico e professor do Centro Universitário de Belo Horizonte (Uni-BH), onde é docente do curso de Publicidade e Propaganda. É autor de “O fluxo metanarrativo de Hilda Hilst em ‘Fluxo-floema’” (Ed. Annablume, 2010), obra oriunda de sua dissertação de Mestrado. Atualmente desenvolve o romance literário “A Casa da Senhora H” sobre a Casa do Sol da escritora Hilda Hilst, projeto contemplado pelo Prêmio Funarte/ Biblioteca Nacional de Criação Literária 2012.

Desde a infância tem apreço por livros (especialmente por romances e contos), o que o levou também a escrever literatura e a produzir jornais aos 11 anos de idade. Desde então, coleciona uma produção (não publicada) de 7 romances, 30 contos, alguns poemas e letras de música, crônicas, roteiros e dramaturgias e muitos textos inacabados. Entretanto, só assumiu profissionalmente o ofício da escrita a partir de sua experiência no teatro como dramaturgo e encenador e, mais recentemente, como escritor por meio do romance “A Casa da Senhora H”. Foi vencedor do Prêmio de Dramaturgia do Clube dos Escritores de Ipatinga/ USIMINAS com a peça (inédita) “Oriana tem que morrer”.

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