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Este artigo foi escrito no dia 13 fev 2014, e pertence à categoria Escrita em Progresso.

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Uma casa para criar

A coluna “Escrita em Progresso” é feita pelo escritor, dramaturgo e encenador Juarez Guimarães Dias. Aqui você acompanha de perto a criação do romance “A Casa da Senhora H”, que revela a história da Casa de Hilda Hilst, seus espaços e habitantes, entre personagens e objetos, mitos e narrativas, no período em que foi residência oficial da autora. A obra recebeu o Prêmio Biblioteca Nacional/ Funarte de Criação Literária, edição 2012.

 

13 de fevereiro de 2014. Na segunda quinzena de janeiro realizei minha última residência de criação do romance “A Casa da Senhora H”. Adianto que o título voltou atrás, eliminei o segundo H: primeiro porque para mim não soou tão bem, ainda que seja a marca indiscutível de Hilda Hilst; segundo, porque estamos no terreno da ficção; terceiro, porque recebi inúmeros comentários de leitores que estranharam e não apreciaram a mudança. É nessa interação entre escritor e leitor, nesta escrita em progresso, que este romance está se realizando. O nome já está na mente de várias pessoas, o que para o trabalho é maravilhoso. Obrigado a todos que estão seguindo!

Durante 17 dias (o maior tempo que residi na Casa do Sol até agora), mergulhei profundamente em seu cotidiano, pude experenciar melhor o projeto da escritora Hilda Hilst de construir uma casa no campo para se dedicar à literatura. Trata-se de uma residência feita para a criação e o pensamento, para se viver de forma autêntica e sem as restrições do mundo convencional, onde cada um tem o direito de se expressar e respeitar a diversidade. Um lugar de encontros, de conversas e trocas, de um acervo bibliotecário raro, de obras de arte, de muitas histórias, paixões e contato com a natureza, flora e fauna. A liberdade conquistada por Hilda Hilst continua inspirando inúmeras pessoas que aqui chegam. Falo por experiência própria.

FOTO CASA _ MATHEUS SORIEDEM

Dessa vez, estava na Casa do Sol não mais para pesquisar (salvo um ou outro detalhe que sempre aparece), mas sobretudo para ler e escrever, tentando refazer a meu modo os passos da Senhora H, oportunidade ímpar para um projeto dessa natureza, a criação de um romance sobre uma história real, verídica, repleta de rastros. No caso, minha estadia integra o Programa de Residências Artísticas, a fina flor do Instituto Hilda Hilst, que recebe artistas e intelectuais que na Casa do Sol encontram terreno fértil para produzir e se inspirar: o silêncio, o jardim, o contato com os cães, as revoadas de pássaros, o sol intenso nesses dias atípicos de verão tropical, o céu absurdamente estrelado que compõe um poderoso teto sobre o pátio de pedras perfeitas, o cotidiano ao mesmo tempo individual e coletivo (cada um tem seu horário e sua programação, mas as refeições costumam ser feitas com a presença de todos, quando temos momentos maravilhosos de ócio, relaxamento e o break necessário para o bem estar da produção artística). E a mais importante característica da Casa: TEMPO para ser, viver e criar. De tudo o que sucedeu nesse período, destaco:

  • a leitura e o estudo de “Testamento para El Greco”, de Nikos Kazantzakis, obra que impeliu Hilda Hilst a deixar sua vida em São Paulo e se dedicar à sua obra (Leia “Testamento para Hilda);
  • a compreensão de que meu projeto será um “romance-documentário”, pois decidi não abrir mão da inserção no texto de documentos como cartas, excertos de diários, bilhetes, relatos, trechos de sua obra, notícias de jornal, assumindo a complexa fronteira entre realidade e ficção, o que abriu as portas para a escrivinhança;
  • a escrita ininterrupta das 28 páginas iniciais do romance, que revela como se constituiu esse PROJETO de vida da escritora, percorrendo episódios da infância, adolescência e juventude, a influência dos pais em sua personalidade, a importância de seus lugares de formação (internato religioso, colégio e universidade) e a participação de amigos e paixões nessa trajetória;
  • as visitas de Matheus Soriedem, grande amigo ator e fotógrafo que topou a empreitada de realizar o inventário fotográfico da Casa e da residência de criação e ilustram este texto, e Glauce Guima, minha irmã linda e artista, também “habituée” da Casa do Sol;
  • o incêndio nos terrenos vizinhos que invadiu os jardins da Casa e que ajudamos a conter, munidos de baldes e mangueiras, episódio intenso e repleto de emoções (Leia “A vida é uma faísca”);
  • o esperado encontro com Dante Casarini, ex-marido de Hilda Hilst, que vive ainda no condomínio onde se situa a Casa do Sol, e que com ela construiu a casa e viveu nela grande parte de sua vida;
  • o convívio, cada vez mais profundo, com os amigos residentes da Casa, fontes primárias de pesquisa e também personagens do romance, que se dispuseram a ler, apreciar e comentar as páginas escritas, procedimento recorrente de Hilda quando estava produzindo.

FOTO JUAREZ_ MATHEUS SORIEDEM

O retorno a Belo Horizonte foi um choque, o que esclareceu ainda mais a decisão da escritora de viver no campo para ler e escrever. Ainda que não seja o meu Projeto, (in)felizmente a realidade se impôs e três dias depois estava novamente integrado à vida que levo e amo, nessa metrópole de montanhas e de comportamento interiorano: vida doméstica, aulas na universidade, ensaios de espetáculos, encontros com amigos e outros compromissos. Mas também é possível se recolher na cidade grande. Daqui pra frente, minha cozinha literária segue a todo vapor, reunindo os ingredientes na construção desse romance. Até março, quando entrego a primeira versão para a Funarte/ Biblioteca Nacional que me concedeu esse prêmio, tenho uma Casa para criar.

Curtiu? Comente, compartilhe! Converse com o autor: juarezgdias@gmail.com

saiba-mais

Juarez Guimarães Dias é mineiro, radicado em Belo Horizonte, e nasceu em 14 de abril de 1978 em Conselheiro Lafaiete. É Doutor em Artes Cênicas (Unirio), Mestre em Literatura (PUC-Minas) e Bacharel em Comunicação Social (Uni-BH). É escritor, dramaturgo e encenador, designer gráfico e professor do Centro Universitário de Belo Horizonte (Uni-BH), onde é docente do curso de Publicidade e Propaganda. É autor de “O fluxo metanarrativo de Hilda Hilst em ‘Fluxo-floema’” (Ed. Annablume, 2010), obra oriunda de sua dissertação de Mestrado. Atualmente desenvolve o romance literário “A Casa da Senhora H” sobre a Casa do Sol da escritora Hilda Hilst, projeto contemplado pelo Prêmio Funarte/ Biblioteca Nacional de Criação Literária 2012.

Desde a infância tem apreço por livros (especialmente por romances e contos), o que o levou também a escrever literatura e a produzir jornais aos 11 anos de idade. Desde então, coleciona uma produção (não publicada) de 7 romances, 30 contos, alguns poemas e letras de música, crônicas, roteiros e dramaturgias e muitos textos inacabados. Entretanto, só assumiu profissionalmente o ofício da escrita a partir de sua experiência no teatro como dramaturgo e encenador e, mais recentemente, como escritor por meio do romance “A Casa da Senhora H”. Foi vencedor do Prêmio de Dramaturgia do Clube dos Escritores de Ipatinga/ USIMINAS com a peça (inédita) “Oriana tem que morrer”.

 

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