INÍCIO . RESENHAS . PERFIL . TOP 5 . +LITERAR
CRÔNICA DO DIA . AGENDA

Informações

Este artigo foi escrito no dia 20 fev 2014, e pertence à categoria Escrita em Progresso.

Tags

, , , , , ,

Uma residência, um endereço

A coluna “Escrita em Progresso” é feita pelo escritor, dramaturgo e encenador Juarez Guimarães Dias. Aqui você acompanha de perto a criação do romance “A Casa da Senhora H”, que revela a história da Casa de Hilda Hilst, seus espaços e habitantes, entre personagens e objetos, mitos e narrativas, no período em que foi residência oficial da autora. A obra recebeu o Prêmio Biblioteca Nacional/ Funarte de Criação Literária, edição 2012.

20 de fevereiro de 2014. Depois da leitura do romance “Testamento para El Greco” de Nikos Kazantzakis, a escritora Hilda Hilst construiu a Casa do Sol em 1965 para poder se dedicar à leitura e à escrita, nas terras da Fazenda São José, que já pertencia há alguns anos a sua mãe, graças ao presente de um amante, um tal Mesquita. Antes, morava numa casa sofisticada em São Paulo, capital, também de propriedade da mãe, com uma governanta, um motorista e um cotidiano charmoso e cheio de prazeres, amantes, viagens, festas, passeios, saraus e encontros, e não conseguia tempo para realizar seu Projeto: a Obra que o Pai, acometido pela tragédia da loucura, não pudera realizar. Junto ao recente namorado, Dante Casarini, que ela conheceu em frente a uma vitrine na Rua Augusta e o escolheu, deixou a capital e seus rumores para a tranquila e afastada vida no campo. Seu novo endereço: Km 11, Estrada de Mogim-Mirim, entrada à direita, Fazenda São José, Chácara Casa do Sol, Cx Postal 1537, Campinas.

literarhh_cartao

Quando cheguei na Casa do Sol pela primeira vez, há 12 anos, as referências eram outras: Km 121,5 da rodovia que liga Campinas a Mogi-Mirim, entrada à direita, Residencial Xangrilá, atual denominação para a antiga da Fazenda que aos poucos foi sendo loteada e urbanizada para gerar recursos de manutenção da vida na Casa do Sol. O condomínio é mais um dos que se espalharam ao redor das metrópoles e grandes cidades brasileiras, à moda dos “surbubs” norte-americanos. Endereço atual da Casa que é sede do Instituto Hilda Hilst: Rua João Caetano Monteiro, 300, 13098-605 Campinas.

No Xangrilá, a Casa do Sol e sua edificação singular, conventual e colonial, de extenso e belo jardim com sua alameda de palmeiras, é um verdadeiro oásis arquitetônico. Outra casa tão singular quanto e que ainda habita essas terras é a Casa da Fazenda, a primeira residência da Fazenda São José, chique e imponente, onde viveu a mãe de Hilda Hilst e seu irmão. Essa foi adquirida por amigos da Senhora H que fizeram uma cuidadosa restauração. A história dessas duas casas hoje vive escondida, muitos dos moradores do Xangrilá desconhecem sua existência ou, de alguma forma, ouviram falar por bocas de Matilde sobre a Casa de uma escritora louca que vivia sozinha e rodeada de cachorros. Quase verdade. A Casa do Sol, erguida sobre o campo de capim barba-de-bode, ao lado da centenária e mágica figueira, não tinha o propósito de ser um monastério para a produção literária da escritora, ao contrário: Hilda Hilst amava as pessoas e estar com elas e por isso a Casa nunca estava só: além dos amigos que eventualmente vinham visitá-la, Hilda convidava amigos que estivessem interessados em viver aqui para realizarem seus projetos e custeava a manutenção de todos. Era despojada e generosa e realizou o que para muitos não passou de utopia ou experimento hippie dos anos 1960: uma vida em comunidade.

literarhh_aerea

Aqui na Literar já escrevi sobre a emoção de ter visitado a Casa do Sol pela primeira vez e conhecer Hilda Hilst e Mora Fuentes, já falecidos, e ainda Olga, Jurandy e Daniel que seguem aqui vivendo e cuidando de sua manutenção. É como se estivesse entrado em outro Tempo, outro relógio, protegido por árvores altas e de copas abastadas, envolto por diversos cães e percebendo in loco o Projeto da Senhora H. Um ano depois, retornei a convite para passar um fim de semana, quando pude estar mais perto da escritora e de seu cotidiano, mas nesse tempo ela já não mais escrevia ou lia. Tinha encerrado o seu trabalho e passava os dias conversando, fumando seus cigarros Chanceller e ainda tomando vinho quando a noite chegava. Ouvi dela inúmeras histórias de sua vida, da Casa, das bandalheiras que às vezes faziam apenas para contrariar as regras e se divertirem e do quanto estava contente por começar a ser lida pelo público. Dois anos depois de nosso primeiro encontro, Hilda faleceu. Retornei depois para uma homenagem póstuma. Cinco anos depois, Mora Fuentes faleceu. Quando havia me dado conta, passaram-se oito anos sem vir à Casa, o que aconteceu em 2012 a convite de Daniel Bilenky, naquela altura já Presidente do Instituto Hilda Hilst. Desse encontro saíram dois novos projetos: a montagem da peça “As aves da noite”, de Hilda Hilst (ainda em fase de captação de recursos) e o romance “A Casa da Senhora H” que já se realiza e está em sua fase final de escrita.

Curtiu? Comente, compartilhe! Converse com o autor: juarezgdias@gmail.com

saiba-mais

Juarez Guimarães Dias é mineiro, radicado em Belo Horizonte, e nasceu em 14 de abril de 1978 em Conselheiro Lafaiete. É Doutor em Artes Cênicas (Unirio), Mestre em Literatura (PUC-Minas) e Bacharel em Comunicação Social (Uni-BH). É escritor, dramaturgo e encenador, designer gráfico e professor do Centro Universitário de Belo Horizonte (Uni-BH), onde é docente do curso de Publicidade e Propaganda. É autor de “O fluxo metanarrativo de Hilda Hilst em ‘Fluxo-floema’” (Ed. Annablume, 2010), obra oriunda de sua dissertação de Mestrado. Atualmente desenvolve o romance literário “A Casa da Senhora H” sobre a Casa do Sol da escritora Hilda Hilst, projeto contemplado pelo Prêmio Funarte/ Biblioteca Nacional de Criação Literária 2012.

Desde a infância tem apreço por livros (especialmente por romances e contos), o que o levou também a escrever literatura e a produzir jornais aos 11 anos de idade. Desde então, coleciona uma produção (não publicada) de 7 romances, 30 contos, alguns poemas e letras de música, crônicas, roteiros e dramaturgias e muitos textos inacabados. Entretanto, só assumiu profissionalmente o ofício da escrita a partir de sua experiência no teatro como dramaturgo e encenador e, mais recentemente, como escritor por meio do romance “A Casa da Senhora H”. Foi vencedor do Prêmio de Dramaturgia do Clube dos Escritores de Ipatinga/ USIMINAS com a peça (inédita) “Oriana tem que morrer”.

 

Comentários

comentário(s)