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Este artigo foi escrito no dia 20 jan 2014, e pertence à categoria Resenhas.

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Resenha: Barba Ensopada de Sangue [Daniel Galera]

Resenha escrita pela colunista convidada Val Prochnow. Val é mineira e jornalista. Já fez de um tudo, desfez-se de um tanto. Entre idas e vindas, mudanças e indecisões, tem a escrita como constante.

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Antes de qualquer coisa, confesso: eu tinha preconceito do Daniel Galera desde os tempos da internet discada. Na verdade, meu problema era com esse sobrenome que eu botei na cabeça ser pseudônimo* – vejam a bobagem. Sempre que lia algo sobre o cara (sobre ele, até então, e nada dele), pensava: ‘não pode ser literatura que preste, gente‘. Assim, ignorei seus textos no CardosOnline e no seu blog, que o colocou em evidência ainda nos anos 90, se não me engano.

Deixei Galera de fora da minha estante, ignorei seus outros romances como quem tem a certeza de estar fazendo o certo até que um dia seus Dentes Guardados caíram de bandeja no meu e-mail, presente enviado por algum amigo que nem sei quem é pra agradecer. Quando vi que ele escreveu os contos com mais ou menos 20 anos, percebi que era hora de largar essa bobagem e partir pra outra obra.

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De Dentes, pulei uns anos até chegar em Barba Ensopada de Sangue, que  escolhi por se passar no sul do país, especificamente em Santa Catarina. Mais especificamente em Garopaba, município do litoral de Santa Catarina, meu melhor lugar do mundo na época das viagens em família de final de ano, quando passávamos o Natal com a família do pai, em São Paulo, para depois seguir para o sul do pais para rever a família da mãe. Coisa linda quando a gente está enganado e tem tempo de ser absolvido. Coisa linda quando a gente fica completamente apaixonado por uma decisão banal. Ao dar um chute no pré-conceito e dar a chance ao Galera, conheci uma das mais incríveis narrativas contemporâneas e um escritor maduro que sabe o que faz.

A história, resumida e impressa na contracapa da publicação, conta  o percurso de um personagem que, logo após a morte do pai, segue para o pequeno e mágico balneário da minha adolescência. A partir dessa mudança (e aqui é preciso revelar mais um motivo por ter escolhido o Barba Ensopada pra iniciar na narrativa do Galera: o protagonista vivia em Porto Alegre, cidade que considero minha segunda casa e onde vivem tios, tias, primos que eu gostaria de ter por perto) é que vamos conhecendo passado, presente, futuro desse que nem sabemos o nome.

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Gerações distintas encontram-se enquanto contemporâneos se perdem e se desentendem e a costura da trama é precisa: Daniel escolhe as palavras cuidadosamente, até para nos dar a impressão do improviso. A trama familiar, o novelo com as discrepâncias e afinidades entre aqueles que têm o mesmo sangue e no entanto, nem se conheceram, são apresentadas em trechos permeados por diálogos extremamente factíveis:

“O pai diz que ele e o avô não eram semelhantes apenas no  sorriso, mas em numerosos aspectos físicos e de comportamento. Que o vô tinha esse mesmo nariz, mais estreito que o dele próprio. O rosto meio largo, os olhos meio afundados no crânio. A mesma cor de pele. Que aquele sanguezinho indígena do avô tinha pulado o filho e caído no neto. Esse teu porte atlético, diz o pai, pode ter certeza que vem do teu vô”.

Fico pensando se devo falar um pouco mais sobre a narrativa e, por fim, decido não furtar do leitor o prazer da descoberta: a cada página de Barba Ensopada de Sangue, somos surpreendidos por um novo personagem, por uma bela e cuidadosa descrição de um ambiente, de um rosto perdido na imensidão da memória do caro protagonista (o personagem sofre de uma anomalia rara que o impede de gravar o rosto das pessoas – a prosopagnosia) ou por um diálogo possível em meio a uma narrativa fantástica.

No entanto é preciso, se não falar, ao menos citar o ritmo. Galera sabe, como poucos, orquestrar sua história. Maestro da narrativa, ele nos toma a mão, logo nas primeiras páginas, como se dissesse ‘vem que eu tenho aqui uma preciosa história. chega mais e vem sem cerimônia, senta que o papo é reto, triste, feliz, por vezes ágil, por vezes lerdo e cansado, assim como a vida’.

Amigo, coisa boa é largar um preconceito. Daniel Galera agora reina lindamente na minha estante. É parte da turma, talvez mais que isso: é o cara novo que, mal chega, se destaca sem precisar fazer esforço e conquista, de vez, a galera toda.

* no final das contas, “Galera” é sobrenome mesmo, de origem italiana! 

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saiba-mais

- Pra quem não conhece o Daniel Galera – e quer conhecer! – uma boa dica é essa entrevista que o cara deu para o Tiro de Letra em 2011. Entre outras coisas, o escritor fala sobre o mercado editoral e seu sobrenome com jeito de apelido. Confira nesse link.

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literar-barba-capaBARBA ENSOPADA DE SANGUE

Autor: Daniel Galera
2008, 368 páginas, Companhia das Letras

Onde comprar?
Saraiva
Submarino
- FNAC
Livraria Cultura
Estante Virtual (novos e usados)

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por Val Prochnow

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*resenha escrita pela colunista convidada Val Prochnow / Um exemplar do livro “Barba Ensopada de Sangue” foi enviado como cortesia para a Literar pela Companhia das Letras.

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