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Este artigo foi escrito no dia 19 nov 2013, e pertence à categoria Escrita em Progresso.

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Como se ergue um mito

19 de novembro de 2013. Uma pessoa um dia se transforma num personagem, não exatamente um personagem de quem um dia nem será lembrado o nome, mas no que se converte em figura mítica, capaz de atravessar gerações e tornar-se emblema de alguma coisa. Ando pesquisando e escrevendo simultaneamente sobre dois mitos, o primeiro para um romance literário e o segundo para um espetáculo de teatro-documentário: Hilda Hilst (“A Casa da Senhora H”) e Marilyn Monroe “(Marilyn Monroe.doc”).

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Trata-se de duas mulheres contemporâneas, ainda que não se tivessem conhecido principalmente por fazerem parte de realidades e sistemas distintos, mas tinham um sonho, um projeto cada: Hilda queria ser escritora e Marilyn atriz. Para tanto, essas mulheres belas, exuberantes e inteligentes, não pouparam esforços para suas conquistas. Lutaram contra as convenções, ultrapassaram barreiras e por isso afirmaram uma identidade. Tidas muitas vezes como um “pedaço de carne” que os homens desfrutavam à revelia, desejavam apenas serem amadas e correspondidas e que pudessem gozar as alegrias do corpo e do espírito. E ainda têm em comum o fato de seus nomes artísticos serem formados por letras duplas que, segundo dizem, costumam dar sorte: MM e HH.

Entretanto, um mito não se constrói apenas sob a pressão dos holofotes, pois Hilda Hilst tomou o rumo contrário de Marilyn Monroe: enquanto essa caminhava em direção ao mundo da fama e prestígio de Hollywood, a primeira assentou-se nas terras da fazenda da mãe, abandonando a vida social intensa e glamorosa por um projeto de reclusão, anonimato e dedicação ao ofício literário. Listamos, portanto, 3 passos para chegar ao mito que Hilda, ou a Senhora H, se tornou, uma das escritoras mais brilhantes da literatura em língua portuguesa:

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1) TRANSFORME-SE RADICALMENTE: troque seus vestidos de alta costura e joias por batas indianas; sapatos de salto alto por sandálias; cabelos escovados e armados por um simples rabo de cavalo; maquiagens por um rosto nu, porém limpo.

2) TENHA UMA VIDA EXCÊNTRICA: decida viver para escrever; abdique de apartamentos na Zona Sul de São Paulo para construir uma casa colonial na zona rural de Campinas, com um pátio interno cercado por arcos como nos mosteiros e conventos; coloque sua fortuna e herança à disposição de um projeto comunitário e convide seus amigos artistas para viverem consigo na fazenda, dando-lhes condições para criarem suas obras; ofereça préstimos aos mais necessitados, como cuidar da saúde dos empregados e dos colonos que habitavam aquelas terras; dedique-se arduamente ao trabalho, passe os dias lendo e escrevendo e às noites entregue-se aos prazeres do álcool, das conversas com amigos e com os amantes; investigue profundamente aspectos da nossa existência e tente comprovar a vida após a morte através de gravações de vozes de pessoas já falecidas, coletadas através de ondas de rádio; exponha seus pensamentos, fale e escreva também sobre sexo, de forma radical, ainda que ganhe rótulos de obscena, desbocada e pornográfica; reúna amigos e residentes para festas e jantares inesquecíveis, num encontro de grandes personalidades como escritores, pintores, físicos, intelectuais e uma gama de personagens tão excêntricos quanto ela; faça pedidos à figueira milagrosa de seu quintal em noites de lua cheia, ela o atenderá; receba em seu jardim a visita de extraterrestres e veja aparições fantasmáticas pela casa; crie dezenas de cães, de raças e procedências variadas, principalmente os que foram abandonados em sua chácara, tenha amor e piedade dos animais que não sofrem de falta de caráter como muitos humanos.

3) EXPONHA SUAS INTIMIDADES: na juventude seja cortejada por homens ricos e milionários e receba presentes inimagináveis como joias, casacos, carros, viagens; tenha flertes com poetas reconhecidos e astros de Hollywood; construa a figura mítica do pai lindo e escritor talentoso que sofria do mal da esquizofrenia e por quem tinha uma paixão à Electra; tema essa hereditariedade e decida não ter filhos; case-se formalmente por pressão materna para atender às exigências da alta sociedade paulistana; apaixone-se por um rapaz vinte anos mais jovem e construa com ele a amizade mais intensa e profunda de sua vida; fale o que pensa, sem meias palavras, seja uma mulher à frente de seu tempo e de preferência irônica e muito engraçada; viva intensamente, sem pudores, porque “A vida é líquida”.

A vida não é uma cartilha a ser seguida, não tem regras, nem passos e manual. Hilda Hilst tornou-se um mito pela sucessão de acontecimentos singulares, alguns acontecidos, outros criados e provocados, e por sua personalidade singular. Ela, que acreditava na imortalidade da alma, resiste ao tempo em sua obra, que a colocou definitivamente no hall dos imortais.

P.S.: A propósito, quem se interessou em conhecer a mulher por trás do mito MM, o espetáculo “Marilyn Monroe.doc” estreia em 5 de dezembro na Escola de Teatro da UFMG.

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Juarez Guimarães Dias é mineiro, radicado em Belo Horizonte, e nasceu em 14 de abril de 1978 em Conselheiro Lafaiete. É Doutor em Artes Cênicas (Unirio), Mestre em Literatura (PUC-Minas) e Bacharel em Comunicação Social (Uni-BH). É escritor, dramaturgo e encenador, designer gráfico e professor do Centro Universitário de Belo Horizonte (Uni-BH), onde é docente do curso de Publicidade e Propaganda. É autor de “O fluxo metanarrativo de Hilda Hilst em ‘Fluxo-floema’” (Ed. Annablume, 2010), obra oriunda de sua dissertação de Mestrado. Atualmente desenvolve o romance literário “A Casa da Senhora H” sobre a Casa do Sol da escritora Hilda Hilst, projeto contemplado pelo Prêmio Funarte/ Biblioteca Nacional de Criação Literária 2012.

Desde a infância tem apreço por livros (especialmente por romances e contos), o que o levou também a escrever literatura e a produzir jornais aos 11 anos de idade. Desde então, coleciona uma produção (não publicada) de 7 romances, 30 contos, alguns poemas e letras de música, crônicas, roteiros e dramaturgias e muitos textos inacabados. Entretanto, só assumiu profissionalmente o ofício da escrita a partir de sua experiência no teatro como dramaturgo e encenador e, mais recentemente, como escritor por meio do romance “A Casa da Senhora H”. Foi vencedor do Prêmio de Dramaturgia do Clube dos Escritores de Ipatinga/ USIMINAS com a peça (inédita) “Oriana tem que morrer”.

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