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Este artigo foi escrito no dia 28 nov 2013, e pertence à categoria Escrita em Progresso.

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Porque tudo se transforma – Parte I

A coluna “Escrita em Progresso” é feita pelo escritor, dramaturgo e encenador Juarez Guimarães Dias. Aqui você acompanha de perto a criação do romance “A Casa da Senhora H”, que revela a história da Casa de Hilda Hilst, seus espaços e habitantes, entre personagens e objetos, mitos e narrativas, no período em que foi residência oficial da autora. A obra recebeu o Prêmio Biblioteca Nacional/ Funarte de Criação Literária, edição 2012.

 

28 de novembro de 2013. O que já se sabe sobre o romance, que nesta altura passou a se chamar “A Casa da Senhora HH” (com dois H)? Todo Projeto é o primeiro rascunho de uma Ideia. Quando há um ano e tal me inscrevi para concorrer ao Prêmio Funarte/ Biblioteca Nacional de Criação Literária, não suporia as transformações pelas quais tem passado o romance a partir do momento em que comecei a realizar o projeto. Toda ideia existe em transformação quando se materializa numa linguagem e o trabalho é tentar comunicá-la, percurso atravessado pelos materiais de pesquisa que todo sujeito criador lança mão, sejam concretos, empíricos e até mesmo científicos.

Neste caso, que escrevo um romance sobre a história de uma casa e de seus habitantes, fotos, vídeos, cartas, imagens, fotografias, inventários, entrevistas, experiência pessoal se convertem em palavra escrita. Tudo deve estar a serviço de estimular a imaginação do leitor e levá-lo a percorrer paisagens mentais, experenciar seu cotidiano e conhecer do avesso seus personagens. Então, a partir desta semana, compartilho com vocês o percurso da criação do romance em seus principais aspectos (definição do nome, definição dos narradores, procedimentos de ficcionalização dos personagens reais, estrutura narrativa e divisão em partes do enredo). Comecemos:

O NOME DO ROMANCE

No Projeto, a primeira ideia foi batizá-lo de “O romance da Casa”, ao propor a casa como protagonista de um enredo, coisa pouco comum. Partindo da premissa “O que aconteceria se as paredes de uma casa decidissem falar, como sugere o ditado popular?”, a ideia se mantém, mas, depois da primeira residência de criação (em janeiro deste ano) na Casa do Sol, em que abri seus arquivos e memória, não restou dúvida de que não se está falando de uma casa apenas ou uma casa qualquer, mas a casa da escritora Hilda Hilst.

HH_CASA

Toda casa tem um senhor ou uma senhora, pois sua existência está atrelada a quem lhe dá sentido. E a dona desta, que pude conhecer pessoalmente em 2002, era uma senhora de 72 anos, muito magra e com embargos na voz, lúcida e cheia de personalidade. Assim descrevi o nosso primeiro encontro, em que estive acompanhado por duas amigas: “A Casa não estava vazia. Recepcionados pelos tantos cães que saíam alvoroçados de diversas partes do jardim, permanecemos incólumes no táxi. A porta principal estava aberta: enquanto ouvíamos os latidos de timbres variados, com os corações nas mãos, fomos invadidos pelo som de um violino que parecia ele mesmo trazer a silhueta de Hilda em nossa direção. Ela se aproximou, passos lentos, ofereceu-nos um sorriso e disse, a voz enrouquecida: ‘Que bom que vocês chegaram. Estava mesmo esperando vocês. Entrem.’ E seguiu-se uma tarde de profundo encantamento”.

Estive pessoalmente com Hilda Hilst duas vezes, além das conversas por telefone, em seus dois últimos anos de vida, tempo suficiente para afirmar uma amizade e admiração e que se mantém pela leitura constante de seus textos e o conhecimento cada vez mais profundo de sua personalidade e história de vida. De sua morte para cá, prolongou-se a amizade com seus amigos para quem deixou a Casa, o legado de sua Obra e o projeto do Instituto: José Luis Mora Fuentes (infelizmente não mais entre nós), Olga Bilenky, Daniel Bilenki Mora Fuentes e depois Jurandy Valença. É uma casa que constrói laços de amizade.

PRIMEIRO_ENCONTRO

E foi naquela primeira residência de criação, após a morte do cachorro Preto-Barqueiro que ajudei a enterrar sob o pé de um flamboyant e que, segundo os astros, representava o renascimento da casa também através da escrita deste romance, que me ocorreu a primeira alteração no nome. Em um brinde ao Barqueiro, ao renascimento e a Hilda Hilst (razão de estarmos todos ali), propus com as taças de vinho em riste que o livro passasse a se chamar “A Casa da Senhora H”. Sei que muitos estranham o fato de me referir à escritora como senhora, mas, como disse logo acima, foi assim que eu a conheci, é a imagem inesquecível que tenho dela. Afinal, o tempo passa para todos que vivem bastante, ainda que não apague seus traços distintivos.

Desde então, tenho divulgado o romance como este segundo título, mas, em função do post de semana passada (“Como se ergue um mito”), ganhou mais um H. Segundo dizem, letras duplas costumam dar sorte. E Hilda Hilst sempre foi e sempre será lembrada por esse duplo H que se tornou sua marca registrada, sua assinatura imortal. Finalmente, na altura em que estamos, o romance se chama “A Casa da Senhora HH”, num percurso de construção do nome que pode assim ser resumido:

“O romance da Casa” > “A Casa da Senhora H” > “A Casa da Senhora HH”

Destaco que uma casa idealizada, como esta, tem em seu cerne a personalidade de quem a concebeu e criou. A Casa do Sol é o emblema do projeto de vida e obra da Senhora HH, que abandonou sua vida confortável para entregar-se a um trabalho exigente, pouco reconhecido, mas que deu sentido à sua existência: a Literatura. Convido vocês a dividirem comigo suas impressões e contribuir com sua leitura para o prosseguimento da criação. Porque estamos vivos, tudo pode mudar. Até a próxima semana!

saiba-mais

Juarez Guimarães Dias é mineiro, radicado em Belo Horizonte, e nasceu em 14 de abril de 1978 em Conselheiro Lafaiete. É Doutor em Artes Cênicas (Unirio), Mestre em Literatura (PUC-Minas) e Bacharel em Comunicação Social (Uni-BH). É escritor, dramaturgo e encenador, designer gráfico e professor do Centro Universitário de Belo Horizonte (Uni-BH), onde é docente do curso de Publicidade e Propaganda. É autor de “O fluxo metanarrativo de Hilda Hilst em ‘Fluxo-floema’” (Ed. Annablume, 2010), obra oriunda de sua dissertação de Mestrado. Atualmente desenvolve o romance literário “A Casa da Senhora H” sobre a Casa do Sol da escritora Hilda Hilst, projeto contemplado pelo Prêmio Funarte/ Biblioteca Nacional de Criação Literária 2012.

Desde a infância tem apreço por livros (especialmente por romances e contos), o que o levou também a escrever literatura e a produzir jornais aos 11 anos de idade. Desde então, coleciona uma produção (não publicada) de 7 romances, 30 contos, alguns poemas e letras de música, crônicas, roteiros e dramaturgias e muitos textos inacabados. Entretanto, só assumiu profissionalmente o ofício da escrita a partir de sua experiência no teatro como dramaturgo e encenador e, mais recentemente, como escritor por meio do romance “A Casa da Senhora H”. Foi vencedor do Prêmio de Dramaturgia do Clube dos Escritores de Ipatinga/ USIMINAS com a peça (inédita) “Oriana tem que morrer”.

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