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Este artigo foi escrito no dia 12 dez 2013, e pertence à categoria Escrita em Progresso.

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Porque tudo se transforma – Parte II

A coluna “Escrita em Progresso” é feita pelo escritor, dramaturgo e encenador Juarez Guimarães Dias. Aqui você acompanha de perto a criação do romance “A Casa da Senhora H”, que revela a história da Casa de Hilda Hilst, seus espaços e habitantes, entre personagens e objetos, mitos e narrativas, no período em que foi residência oficial da autora. A obra recebeu o Prêmio Biblioteca Nacional/ Funarte de Criação Literária, edição 2012.

12 de dezembro de 2013. Há um ano exato recebia a notícia de que fui um dos vencedores do Prêmio de Criação Literária da Funarte/ Biblioteca Nacional com o projeto “O romance da Casa”. Um dia marcado de forma especial (12/12/12) e que transformou minha percepção sobre o trabalho de escrever, pesquisar e criar.

Primeiro, porque há anos não escrevia um romance, o último foi “Refúgio, remorso e réveillon” (inédito, finalizado em 2000, ou seja, 12 anos antes deste), ofício que havia renegado por não ter coragem de assumi-lo como profissão. De lá para cá, escrevi muito para o teatro, fossem textos inéditos, adaptações de textos literários, ou conduzindo grupos de pesquisa e projetos experimentais em dramaturgia e encenação que se iniciavam na escrita dos projetos para editais. Escrevi também campanhas publicitárias, trabalhos científicos, ensaios para jornais etc. Nesse meio-de-campo uma dissertação sobre Hilda Hilst e uma tese sobre procedimentos de encenação de romances no teatro contemporâneo através do trabalho de Aderbal Freire-Filho, do português João Brites e da pesquisa junto à Cia. Pierrot Lunar. E eis que um projeto literário é aprovado e coloca-se para mim como um novo desafio, uma retomada.

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Ao experenciar tantas linguagens, reconheço que escrever é uma coisa só. Um só gesto. Agora, no romance, percebo que escrevo como o tecelão que versa seu tapete pelo avesso, reunindo muitas vezes linhas, imagens, retalhos dispersos que ali encontram familiaridade. Essa metáfora, que Jean Pierre Sarrazac atribui ao dramaturgo contemporâneo (entre outras, como a do cirurgião), serve mais amplamente para todos aqueles que escrevem. Transformar materiais, ideias, sentimentos, imagens e vozes e lhes conferir unidade de texto (ainda que fragmentado e multivocal) é trabalho singular e concreto. Todo mundo escreve, mas nem todo mundo é escritor. Ainda bem, como deve prevalecer em toda profissão. Parece reacionário dizer isso em tempos de uso contínuo de ferramentas de escrita virtual, talvez nunca tenhamos escrito tanto, mas faz distinguir a qualidade de quem escreve por escrever e quem escreve por convicção.

De janeiro deste ano em diante, realizei duas residências de criação na Casa do Sol, sede do Instituto Hilda Hilst e minha personagem. Lá, imerso em suas paredes, pátio e jardins, dediquei-me a elencar os materiais de pesquisa sobre a história da casa, de seus moradores e visitantes. Escolhi o inventário como método de trabalho, que relaciona os bens deixados por alguém. Segundo o Dizionario Etimologico, “inventário” deriva de “inventar”, ambas de origem latina. Nesse sentido, a palavra refere-se ao ato de inventar, ficcionar, criar, tendo a Casa do Sol como protagonista e de onde emergirão os demais personagens, humanos e não-humanos, reais e ficcionais, já que foi fonte imprescindível de inspiração para Hilda Hilst. Em seguida, pus-me a escrever fragmentos do romance, a partir de contato com alguns materiais que ofereciam inspiração imediata e passei a publicar no meu perfil no Facebook, buscando uma primeira aproximação com os leitores do meu círculo de amizades. Em seguida, expandiu-se para uma página na mesma rede, exclusiva para o romance, que ainda está encontrando seu lugar no mundo virtual. Os fragmentos soltos, aparentemente desconexos, tinham como princípio serem independentes, que pudessem comunicar um aspecto dessa realidade ficcional de forma autônoma e acabaram provocando interesse em quem os leu, o que foi ótimo sinal. Entretanto, agora que o tempo avança, março é logo ali, quando tenho que entregar a primeira versão acabada para a Funarte/ Biblioteca Nacional, começa o tempo de empunhar linha e agulha e começar a tecer o tapete.

P.S.: O Arcano 12 do Tarô, ou O Enforcado, que rege a data deste projeto, é sinônimo das situações cármicas. Visto muitas vezes como o arcano da inércia, ele traz consigo a necessidade de ação. É preciso encarar de frente as questões primordiais, tomar atitude e sair do comodismo. Ao assumir a identidade de escritor, aceito meu destino e entrego-me a ele com o sacrifício que os grandes atos inspiram. Que o destino esteja certo.

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Juarez Guimarães Dias é mineiro, radicado em Belo Horizonte, e nasceu em 14 de abril de 1978 em Conselheiro Lafaiete. É Doutor em Artes Cênicas (Unirio), Mestre em Literatura (PUC-Minas) e Bacharel em Comunicação Social (Uni-BH). É escritor, dramaturgo e encenador, designer gráfico e professor do Centro Universitário de Belo Horizonte (Uni-BH), onde é docente do curso de Publicidade e Propaganda. É autor de “O fluxo metanarrativo de Hilda Hilst em ‘Fluxo-floema’” (Ed. Annablume, 2010), obra oriunda de sua dissertação de Mestrado. Atualmente desenvolve o romance literário “A Casa da Senhora H” sobre a Casa do Sol da escritora Hilda Hilst, projeto contemplado pelo Prêmio Funarte/ Biblioteca Nacional de Criação Literária 2012.

Desde a infância tem apreço por livros (especialmente por romances e contos), o que o levou também a escrever literatura e a produzir jornais aos 11 anos de idade. Desde então, coleciona uma produção (não publicada) de 7 romances, 30 contos, alguns poemas e letras de música, crônicas, roteiros e dramaturgias e muitos textos inacabados. Entretanto, só assumiu profissionalmente o ofício da escrita a partir de sua experiência no teatro como dramaturgo e encenador e, mais recentemente, como escritor por meio do romance “A Casa da Senhora H”. Foi vencedor do Prêmio de Dramaturgia do Clube dos Escritores de Ipatinga/ USIMINAS com a peça (inédita) “Oriana tem que morrer”.

 

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