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Este artigo foi escrito no dia 14 jan 2014, e pertence à categoria Resenhas.

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Resenha: O Rei se Inclina e Mata [Herta Müller]

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Vira e mexe a gente tromba com um livro que nos deixa assim meio fora de órbita. Às vezes foi aquele que te encantou pela capa em uma livraria, ou um bom amigo que te indicou – e mesmo, não tão raro assim, o livro que você pega pra ler sem grandes esperanças e que te surpreende do começo ao fim.

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Eu já sabia que a Herta Müller havia sido premiada com o Nobel de Literatura em 2009, mas até segunda ordem isso não me garante uma leitura prazerosa (até porque eu já cai na emboscada de “fulano ganhou o Nobel” e tive que largar o livro pela metade!). Ainda mais quando é o livro em questão é uma reunião de ensaios, como é o caso de O Rei se Inclina e Mata - mesmo me enxergando como um cara bem cabeça aberta, confesso: inicialmente, um livro desse gênero me deu uma certa preguicinha.

Pois é, e que surpresa: nas primeiras 20 páginas Herta Müller se transformou na minha descoberta recente favorita. A escritora romena alfabetizada em alemão tem uma relação especial com as palavras. Entre sua infância na pequena cidade de Nitzkdorf, no interior da Romênia, e a vida em Munique, Herta descreve as relações linguísticas entre o alemão e o romeno, mostrando como uma mesma palavra pode ter significados completamente diferentes para quem conhece o contexto social das duas.

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A escrita de Herta Müller nos situa no cenário político europeu das décadas de 1960-1980, sem que a narrativa se torne um enfadonho listar de acontecimentos históricos. Na época, a Romênia se situava entre o comunismo russo e a herança do nazismo alemão (o pai de Herta fora funcionário da SS de Hitler), e essa disparidade é notada pela autora também nas diferentes palavras usadas pelos romenos e alemães. A língua, como Müller ressalta muito bem, é um organismo vivo, que reflete os anseios e a cultura de quem as coloca na boca.

A língua nunca foi e nunca é, em tempo algum, um terreno apolítico, pois ela não pode ser separada daquilo que uma pessoa faz com a outra. Ela sempre vive no caso específico, cada vez é preciso estar à espreita para arrancar-lhe o seu intento. Nessa indissociabilidade da ação ela se torna legítima ou inaceitável, bonita ou feia, também se pode dizer: boa ou má. Em cada língua, isto é, em cada modo de falar estão fincados outros olhos.

Da leitura de O Rei se Inclina e Mata, ficam para mim três lições principais: 1) julgar um livro por seu gênero literário é tão burro quanto dizer “não comi e não gostei”; 2) para quem, assim como eu, se interessa por línguas estrangeiras e pelos aspectos sociais e culturas que habitam em cada uma delas, Herta Müller é leitura obrigatória; e finalmente, 3) nunca subestime o poder das palavras.

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literar-hertamuller-capaO REI SE INCLINA E MATA

Autora: Herta Müller
Título original: Der König Verneigt Sich und Tötet
2013, 216 páginas, Biblioteca Azul

Onde comprar?
Livraria Cultura
Livraria da Folha
- Amazon Brasil (ebook)
Estante Virtual (novos e usados)
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Um exemplar do livro “O Rei se Inclina e Mata” foi enviado como cortesia para a Literar pela Globo Livros.

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