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Este artigo foi escrito no dia 28 ago 2013, e pertence à categoria Resenhas.

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Resenha: Sal [Letícia Wierzchowski]

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Há alguns anos, um livro me marcou muito. Uma amiga havia lido As Parceiras, de Lya Luft, e me emprestara dizendo que eu precisava ler esse livro. Essa não é uma resenha sobre o livro da Luft – que, como minha amiga havia previsto, realmente me deixou encantado – mas sim sobre um outro que, anos depois, me fez lembrar as sensações que tive ao ler As Parceiras.

Quando fiquei sabendo do novo livro de Letícia Wierzchowski, logo fui atrás da sinopse e fiquei com muita vontade de lê-lo. Sal conta a história recente da família Godoy. E vale destacar o “recente” pois, embora a trama se desenrole ao longo de décadas, essa é só a ponta do iceberg na linhagem da família de marinheiros que há séculos percorre o mundo. É numa dessas viagens marítimas que um dos Godoy resolve se estabelecer em La Duiva, uma pequena ilha na América Latina, e formar ali sua família. Os Godoy são responsáveis pela manutenção do farol da praia, guiando as embarcações que por ali passam e evitando naufrágios.

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Por agora você deve estar se perguntando o que isso tem a ver com o romance de Lya Luft. A questão é: o que me encantou, nos dois livros, foi a forma de contar uma história familiar repleta de perdas e tristezas sem fim. A personagem central de Sal – ou o farol da narrativa, para manter a linha de Wierzchowski – é Cecília. A história do livro começa antes dela (com os pais de seu marido) e termina com seus filhos já adultos – mas é nela que tudo converge. Cecília e Ivan Godoy têm cinco filhos, mas eventualmente a mãe se vê sozinha na ilha: o marido morre, os filhos seguem os mais diversos caminhos, e somente ela permanece em La Duiva – como um porto esperando que seus barcos voltem a atracar.

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Sal é dividido em três partes e muitas cores. Cecília tricota (literalmente) a história contada, colocando em um tapete as memórias dos Godoy – e dando diferentes cores para cada um dos personagens. Durante todo o livro, vemos diferentes tons dando voz aos capítulos: cada hora, um personagem narra sua visão dos fatos.

Na primeira parte, a personagem de destaque é Flora, a filha que lê muito e descobre gostar também de criar histórias. Flora escreve um livro e, meio sem saber, acaba colocando no papel o futuro – trágico, deve-se acrescentar – da família. Ficamos conhecendo os cinco filhos: o primogênito Lucas, que acompanha o pai no trabalho de manter o farol; a delicada Julieta e seu sofrimento com uma doença degenerativa; as gêmeas (tão iguais e tão diferentes) Flora e Eva; o curioso e divertido Orfeu; e, por fim, Tiberius, o caçula – e provavelmente o personagem mais intrigante do livro, com suas visões e premonições.

Com os rumos da família traçados, a segunda parte é focada em Tiberius e sua busca por Orfeu, que partira para a Europa. Na porção final de Sal, tem destaque a voz de Orfeu, contando em uma carta suas experiências, alegrias e arrependimentos.

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Como acontece com a protagonista de As Parceiras, Cecília revive o passado como tentativa de colocar em ordem tudo o que aconteceu. Ela é o farol – literal ou metafórico – que perde o ritmo (e o rumo) quando sua família some de La Duiva e a deixa à deriva. Enquanto tricota suas linhas e desenha cenários sofridos e excitantes, Cecília deixa ver seus segredos mais íntimos, tentando não se entregar à loucura que parece a todo minuto tentar alcançá-la.

Sal é uma bela crônica familiar, contada com maestria por Letícia Wierzchowski. Em algumas partes é difícil distinguir prosa e poesia, tamanho o lirismo presente no livro. E é esse o elemento chave para nos colocar tão intimamente em contato com os medos e desejos dessa família afastada do mundo em uma ilha, com nada além de um farol antigo para guiar seus passos. Sal foi, sem dúvidas, uma das melhores surpresas que tive com a literatura brasileira esse ano.

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saiba-mais

- Para conhecer melhor antes de ler, a gente sugere o download (gratuito) de Sal – Um Prólogo. O e-book, disponibilizado pela autora, conta com uma apresentação da história e dos personagens. Uma ótima forma de decidir se a leitura vale ou não a pena. Você pode acessá-lo na Amazon através desse link.

- Letícia Wierzchowski é a escritora de A Casa das Sete Mulheres, obra adaptada para uma minissérie da TV Globo em 2003. Além de Sal e A Casa, Letícia já publicou 9 romances (e 4 livros infantis). É ela também um dos responsáveis pelo roteiro de O Tempo e o Vento, filme inspirado no clássico de Érico Veríssimo que chega aos cinemas no final do ano (e cujo trailer você vê aqui)

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Autora: Letícia Wierzchowski
2013, 240 páginas, Editora Intrínseca

Onde comprar?
Saraiva
Submarino
Livraria Cultura
Livraria da Folha
Estante Virtual (novos e usados)

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